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O dia em que encontrei David Bowie na pista

A lembrança de um breve momento com o Camaleão do pop em um clube de Londres ainda ecoa, dez anos depois da sua morte

(Reprodução)

 

Dia 25 de maio de 1997. Eram mais ou menos 18h e a fila rodeava a praça em frente ao clube Blue Note, em Hoxton, Londres. Era domingo, dia da Metalheadz Sunday Session. A festa mais quente do então quentíssimo drum and bass era comandada por Goldie, o astro dos dentes de ouro. Mas, sinceramente, eu tava mais pra lá do que pra cá. Na véspera, tinha passado a tarde, a noite, a madrugada e o começo do outro dia no Tribal Gathering, festival que reunira nomes como Kraftwerk (voltando aos palcos depois de longa ausência), Daft Punk (em começo de carreira), Orbital, DJ Shadow e um zilhão de nomes da emergente dance music (não se dizia música eletrônica e muito menos, claro, EDM). Boa parte da jornada de trabalho – estava cobrindo o evento pro “Globo” – tinha sido passada na lotada e inflamada tenda de db, onde tocaram Roni Size, Ganja Kru, Ray Keith e Hype, entre outros pesos pesados do gênero. Ou seja, tava de bom tamanho.

Mas que nada. Roberto Cotrim, amigo que estava na cidade de férias, botou a pilha de irmos à festa e acabei cedendo, mesmo estando quase descarregado. Após mais ou menos meia hora, conseguimos entrar. Lá dentro, lotado, calor dos infernos. Goldie estava nos toca-discos. O som era pesado, denso, as batidas quebradas e as freqüências graves entortando meu estômago. O gelo seco e a fumaça de cigarrões artesanais envolviam a pista. Só a Red Stripe me mantinha de pé naquela maravilha de cenário. De repente, no meio daquela lata de sardinha jungle, Roberto falou algo no meu ouvido.

– Esse cara do teu lado parece o David Bowie.

– Hein?

– ESSE CARA DO TEU LADO PARECE O DAVID BOWIE! – gritou, em caixa alta.

 

(Reprodução)

Estava tão cansado e chapado que nem dei muita bola. Mas uma olhada mais apurada mostrou que, ora veja, não era mesmo o Bowie, ali, no meio da massa, sem segurança, dançando como todo mundo? Sua presença ali não era totalmente inusitada. Ele tinha acabado de lançar o álbum “Earthling”, fortemente influenciado pelo som jungle/drum and bass.

Tieto, não tieto, tieto, não tieto, tieto, não tieto…

– Ah, você é do Brasil? – disse ele, todo simpático, apertando minha mão após a vitória do “tieto”. – Aqui é ótimo, não? Quando estou na cidade, venho sempre.

 

Goldie em ação no Metalheadz, no Blue Note, em Londres (Divulgação/Doc Scott)

 

A batida fica ainda mais nervosa, neurótica. O MC anuncia a entrada de Grooverider no som. A massa grita. Tento parecer supercool, tomando cerveja na pista do Metalheadz ao lado de David Bowie, tranqüilo, imagina, o que tem demais? Mas a verdade é que entrei no modo “supertímido” e não consegui falar mais nada. Bowie me socorreu e voltou a falar mais alguma coisa no meu ouvido.

– Como vai o drum and bass no Brasil? Deve ser um casamento perfeito com o samba.

Acho que concordei, mas não lembro direito.  Assim como a garganta, o papo secou. Então  acenamos e fomos cada um para o seu canto (ah, um celular naquela época). Tudo bem. Dali em diante, só uma coisa importava naquele resto de noite.

Let´s dance!

(Remix de texto publicado no jornal “O Globo” no século passado).