Milhões de anos atrás, um abalo sísmico rompeu a massa de terra que unia dois continentes. O Mar Negro invadiu o Mar de Mármara, criando o Bósforo, e esse acidente geológico separou a Ásia da Europa. O corte foi curto – estreito o bastante para que os homens o cruzassem. E se a geografia é destino, como diria o sábio, essa condição deixou marcas permanentes na mais cosmopolita cidade turca, Istambul.
Estive pela primeira vez nessa megalópole em setembro passado, a caminho das Maldivas. Já fui para a Ásia algumas vezes, com escalas pela Europa e especialmente pelo Oriente Médio. São muitas as vantagens de escolher Istambul como rota. A cidade é muito mais interessante que Dubai e Doha, por exemplo, e seu aeroporto é também moderno, sofisticado, limpo, seguro, funcional, com ótimas lojas. A Turkish Airlines permite um stopover de dois dias – o país, além da gigante Istambul, tem Capadócia, Bodrum e a Riviera turca.
Istambul tem quase 17 milhões de pessoas, população equivalente à da Grande São Paulo. A parte europeia é antiga, mas moderna e sempre foi o centro do poder – onde foram construídos os palácios, as mesquitas e onde ficavam os generais. Era nela também que viveram os comerciantes, principalmente italianos – genoveses, venezianos, pisanos –, entre os séculos 12 e 15, que controlavam o comércio marítimo e formaram a vida noturna e os lugares de diversão. A cidade é segura e tranquila de circular a qualquer hora do dia ou da noite. Assaltos à mão armada, tão comuns nas nossas capitais, praticamente não existem. Muito menos sequestros relâmpagos. Mas você pode topar com turcos malandros.
A seguir, alguns lugares que visitei em dois dias:
Foxy Nişantaşı: o chef Maksut Aşkar, do Neolokal (um dos restaurantes que trouxeram a culinária tradicional da Anatólia para o centro das atenções, destacando pratos, técnicas e ingredientes com influências turcas, curdas, armênias, gregas e árabes), aventura-se agora num bar de vinhos no efervescente bairro de Nişantaşı. A atmosfera descontraída de um bistrô moderno (onde até o gato da casa circula entre as mesas) serve de cenário ideal para uma cozinha contemporânea que revisita sabores locais com leveza e precisão, incorporando ingredientes do mundo. A carta de vinhos, dos naturais às denominações clássicas, fica a cargo do especialista Levon Bağış, que lidera uma equipa totalmente alinhada.
Arkestra: é importante fazer reserva nesse misto de restaurante, bar e balada, fincado em uma casa antiga dos anos 60. Antes ou depois do jantar, você pode ir ao Listening Room: os drinks são ótimos e o staff atencioso. Uma parede coberta com discos de vinil reforça a vocação do lugar, onde acontecem eventos semanais nos quais DJs e convidados podem escolher o que tocar.
Four Seasons: há dois hotéis da rede canadense na cidade. Fiquei no que está debruçado sobre o Bósforo. O hotel ocupa um prédio que foi palácio otomano no século 19. O restaurante Acqua mescla cozinha italiana e turca. Desde a taça de cristal, onde foi servido o vinho, ao rolinho de camarão de entrada, fora a vista do Bósforo, tudo impressiona ali. Também vale destacar a academia superequipada, com aparelhos novos, além de sala de pilates e até de boxe.
Aeroporto: é um orgulho local e ganhou vários prêmios internacionais – considerado o melhor do mundo pela “Travel + Leisure” em 2024 e 2025. É o maior da Turquia e um dos mais movimentados da Europa, com mais de 80 milhões de passageiros por ano. Tem uma arquitetura moderna e salas incríveis. O Business Lounge da Turkish Airlines é praticamente um hotel: biblioteca, salas de descanso, bufê com comida local, simulador de golfe, piano automático, cabines privativas e chuveiros. É um aeroporto funcional, bonito e silencioso.
Santa Sofia: construída originalmente como Igreja Católica, prova da influência romana na região. Antes dela, já havia duas igrejas no mesmo local e, antes de tudo, um templo pagão. Foi Justiniano quem mandou construir a Santa Sofia, há mais de 1.500 anos. Foi a maior basílica do mundo em seu tempo. O andar inferior era reservado aos homens; o superior, às mulheres. Em seus cantos, mosaicos de querubins – um com o rosto visível, outro coberto, mostrando a diferença entre o período bizantino e o otomano. E nas paredes, caligrafias árabes e turcas, nem sempre religiosas: muitos textos turcos foram escritos com o alfabeto árabe e incluem palavras persas.

Mesquita Azul: construída no século 17, é o grande símbolo da fé otomana. Tem 22 mil azulejos de Iznik, todos pintados e queimados à mão. De longe, parecem pinturas, mas são cerâmicas de altíssima qualidade. Os seis minaretes simbolizam os seis pilares da fé muçulmana – crença em Deus, nos anjos, nos profetas, nos livros sagrados, no Juízo Final e no destino. Os minaretes serviam para o chamado à oração – o muezim subia por escadas em espiral e, do alto, anunciava a reza. Hoje, 99% da Turquia é muçulmana, mas Istambul é cosmopolita: tem mais de 200 igrejas ativas e várias sinagogas. A prática religiosa é mais leve: mulheres com véu e sem véu convivem, o álcool é comum, embora o porco continue proibido.
Galataport: há restaurantes para todos os gostos. O porto tem um sistema moderno: quando os navios atracam, uma parede sobe automaticamente, criando uma área alfandegária. Quando o navio parte, a parede desce, e o público volta a ter acesso direto à orla. Aproveitei para comprar toalhas com algodão turco; a qualidade supera as melhores brasileiras por um terço do preço.
Turkish Airlines: a grande vantagem é o stopover oferecido pela companhia aérea. Na classe executiva, as amenities são Lanvin e o menu destaca ingredientes de origem turca e receita simples. No café da manhã, são servidos suco de laranja fresco, smoothie de morango, salada de frutas, queijos, azeitonas, tomate, pepino e acuka, pasta de tomate e pimentão típica da Anatólia. Acompanhando, o favo de mel vem de Erzincan e o kaymak, um creme coalhado espesso, de Afyon, região conhecida pelos laticínios artesanais. Entre os pratos, havia quatro opções: ovos pochê com espinafre; queijo kaşar, um queijo curado de leite de ovelha; strudel doce de queijo fresco com frutas vermelhas; ou tigela de chia com coco e mirtilo. No jantar, kaftas grelhadas com molho de iogurte. Pães e croissants são servidos quentes. A carta de bebidas tem destaque para o champanhe Taittinger, uísques Glenfiddich 15 anos e Johnnie Walker.
