Quem me conhece sabe que sempre tive uma certa resistência a ir a lugares muito semelhantes à minha realidade. Não saio de casa para comer os mesmos pratos, ouvir a mesma música e paquerar o mesmo tipo de pessoa. Tenho fascínio pela ideia de ser transportado para um outro mundo cheio de novas possibilidades. Talvez por isso, a Ásia, o Oriente Médio e a África sempre tenham me encantado. Recentemente, depois de uma jornada interminável que levou mais de trinta horas, cheguei pela sétima vez ao continente africano. Um lugar quase impossível de gerar apatia.
Tomo muito cuidado quando falo do “berço da humanidade” como se fosse um local monotemático exatamente por ter a exata noção da pluralidade desse destino enorme. Diferentemente do que muita gente pensa, o que se come na Etiópia pouco tem a ver com um almoço em Botsuana; os ritmos que embalam os velórios na Somália não se confundem com a percussão constante das praias do Senegal e a arquitetura marroquina não podia ser mais diferente do urbanismo da Tanzânia. A história, a cultura e a energia africanas têm um impacto certeiro em quem aterrissa por lá com a cabeça aberta.
Por conta de um passado sofrido que envolve anos de escravidão, fome e outras tragédias, parte do mundo associa esse local a más notícias. No entanto, ao longo dessas visitas, me dei conta de que um olhar atento mostra sinais claros de progresso. A expectativa de vida subiu mais de dez anos nas últimas três décadas; a mortalidade infantil vem caindo de forma consistente; e a população jovem — uma das maiores do planeta — representa um potencial enorme de inovação e crescimento. Cidades como Kigali, Nairóbi, Joanesburgo e Accra estão despontando como polos de tecnologia, arte e empreendedorismo. Em meio a tantos desafios, a África também é um terreno fértil de esperança e de futuros possíveis.

O sul da Namíbia já foi palco de uma das maiores movimentações de vida selvagem da história: estima-se que quase dez milhões de springboks (cabras-de-leque) tenham migrado por ali, cobrindo horizontes inteiros. Hoje, esse mesmo cenário convive com uma realidade diferente. Quase 90% da fauna desapareceu no último século. Girafas que já se contavam aos milhares mal chegam a dúzias. Rinocerontes, que um dia dominaram a paisagem, hoje sobrevivem sob constante ameaça de caça ilegal e perda de habitat. Leões, elefantes e hienas sumiram de vez.
Apesar de já ter visitado quase noventa países, confesso nunca ter posto os pés em um local tão ermo, imenso e vazio. A sensação inicial remete à ideia de pousar em um planeta ainda não habitado. Hollywood também percebeu isso: não por acaso, escolheu esse cenário para produções como “Mad Max”, “A Múmia” e “Dune”. Para alguém como eu, que vive no eixo urbano São Paulo – Nova York, o silêncio é ensurdecedor. Costumo dizer que nos últimos vinte anos o mundo mudou mais que nos dois séculos anteriores; a chegada da internet, das redes sociais e o crescimento do capitalismo aceleraram transformações antes inimagináveis. Com isso dito, olhando ao redor, é impossível não se dar conta de que, geograficamente falando, esse lugar permaneceu intacto… A vegetação, as estruturas rochosas, o pôr do sol e as dunas continuam idênticas, a única mudança está no vazio absoluto da paisagem.
É nesse local que nasceu a ORKCA (de Orange River-Karoo Conservation Area), criada por ambientalistas que se recusaram a aceitar a extinção como destino. A ideia é simples, mas ousada: unir ciência, tecnologia e comunidade para proteger espécies em risco e devolver equilíbrio ao ecossistema. A missão vai além de salvar animais. Trata-se de envolver moradores, gerar educação e construir um modelo que possa ser replicado em outras partes do continente.
Para sair do papel, um projeto ousado como esse precisou de parceiros à altura. Após um ano de pesquisas e recrutamento, a iniciativa foi apresentada para a Rolex, uma marca que, desde o início, associou sua história àqueles que ousam ir além do possível. Foi assim com Hans Wilsdorf, que acreditava que o relógio de pulso poderia ser ferramenta para pioneiros. Da criação do primeiro modelo à prova d’água aos cronômetros que acompanharam alpinistas no Everest e mergulhadores nas profundezas do oceano, a Rolex sempre esteve presente onde os limites eram testados. Essa vocação evoluiu para algo ainda maior: o Perpetual Planet Initiative, um programa que apoia projetos científicos e ambientais no mundo inteiro.

Na Namíbia, esse apoio se traduz em musculatura e visibilidade para a ORKCA. Uma parceria que une tradição e futuro. Apesar do sucesso da parceria, os desafios ainda são relevantes. Hoje, metade do financiamento da conservação global ainda depende de uma prática controversa: a caça legalizada e controlada. Como substituir essa dependência? A resposta pode estar na própria comunidade. Quando os moradores têm acesso a alternativas econômicas — de capacitação a turismo sustentável —, a conservação deixa de ser um ideal distante e passa a ser uma forma de sobrevivência.
Num mundo globalizado, destinos parecem cada vez mais semelhantes entre si. Tudo aos poucos passa a ter o mesmo gosto, cheiro e aparência. Hotéis, restaurantes e até experiências se repetem, tornando raro o sentimento de descoberta. É por isso que lugares como o sul da Namíbia aos poucos se tornam valiosos. Esse tipo de turismo pode ser parte essencial da resposta para os desafios que essa região enfrenta. Se boa parte do planeta se uniformiza em ritmos acelerados, esse lugar lembra que ainda existem paisagens, comunidades e ideias capazes de oferecer caminhos alternativos — para o turismo, para a conservação e, principalmente, para o futuro. Dessa vez, saio convencido de que o continente talvez não seja apenas o lugar onde tudo começou, mas também um território capaz de acolher recomeços.