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Conheça a dupla que deixou o mundo da moda para se tornar guardiã de um refúgio elegante em Trancoso

“Aqui eu não me sinto gringo. Sei que sou, mas as pessoas não têm problemas com os estrangeiros. Elas recebem todos de braços abertos. Sempre me senti parte da comunidade”, diz o americano Bob Shevlin, em meio à luz suave que envolve o restaurante do Uxua Casa Hotel e Spa, junto ao Quadrado, em Trancoso, no sul da Bahia. “Em outros lugares, você compra uma casa e sempre será um estrangeiro”, define.

Foto: Marta Tucci

Sentado ao lado, seu sócio, o holandês Wilbert Das, dá um gole na taça de vinho branco e conta que, na primeira vez que chegou a Trancoso, em 2004, chovia muito. Para se proteger, abrigou-se num bar, onde um cavalo entrou em seguida. “Achei aquilo incrível. Na hora, pensei: aqui é meu lugar.” Bob e Wilbert trabalharam juntos no mundo da moda na Itália. Wilbert era o diretor criativo da Diesel, quando um jeans da marca era objeto do desejo, e Bob dava as coordenadas do marketing. “Quando entrei na moda, não sabia nem definir as estações. Mas todos na Europa me ajudaram porque sou um antiamericano”, conta esse personagem irreverente, que vive entre Trancoso e os Estados Unidos – parte do tempo em Ohio e parte na Califórnia.

A casa dos dois em Venice Beach pertencia ao ator Richard Dean Anderson, estrela do seriado “MacGyver”, que fez sucesso nos anos 80/90. No passado, os donos do Uxua formavam um casal. Hoje são amigos e sócios que guardam um passado comum. Bob fala muito; Wilbert é reservado.

Foto: Marta Tucci

Wilbert sempre misturou design de roupas com arquitetura. Desenhou a primeira loja-conceito da Diesel em Nova York. O primeiro hotel foi o Pelican, em Miami, em 97. Daí tomou gosto por aproveitar construções para fazer delas algo diferente. Em Trancoso, a dupla começou comprando uma casinha no Quadrado que pertencia a uns hippies suíços. Ao reformá-la, foram pioneiros de um estilo de hospedagem ligada às raízes da terra, com materiais reciclados e mão de obra local. “Começamos um movimento de design rústico, trabalhando só com artesãos daqui”, diz Wilbert, que, paralelamente à atuação em Trancoso, constrói um vilarejo numa área de dez quilômetros de praia em Jalisco, no México.

Foto: Marta Tucci

O projeto em Trancoso, o Uxua Maré, foi notícia no New York Times antes mesmo de abrir as portas. Bob, mais afeito ao mercado imobiliário, foi quem viu a oportunidade na compra do terreno. Wilbert encarregou-se da construção, em parceria com o holandês Peter Kempkens, que também veio da área de design da Diesel. Wilbert inspirou-se em casas do interior de Minas Gerais, com uma pegada caipira, para reconstruí-las à beira-mar, na praia de Itapororoca, faixa de areia maravilhosa, com mar suave, corais, piscinas naturais, coqueiros e amendoeiras para se proteger do Sol.

Foto: Marta Tucci

Junto à areia há áreas protegidas com redes e mesas para desfrutar a calmaria do lugar. São quatro casas de sofisticação discreta, com espaços iluminados e coloridos. No terreno amplo, um bangalô antigo foi restaurado e abriga agora um restaurante. Todos os ladrilhos hidráulicos, os seixos das piscinas, as madeiras e as cores foram escolhidos por Wilbert e Peter. Eles também desenharam móveis, luminárias e algumas cadeiras. Outras trouxeram de Minas Gerais ou compraram na internet e restauraram.

Foto: Marta Tucci

“Não gosto muito da palavra luxo. São casas com personalidade, com serviço de hotelaria. Acho que isto é luxo, embora rústico. Luxo pra mim é espaço, ar puro, natureza e um sorriso de verdade”, resume Wilbert. Ele hoje dispensa o fervilhar de grandes cidades como Milão ou Amsterdã. Tornou-se mais seletivo. Conta que o hotel passou a ser uma fonte constante para conhecer pessoas. “Trabalhei com Karl Lagerfeld, com pessoas incríveis. Mas aqui, neste lugar pequeno, conheci gente mais interessante. Porque você conhece a pessoa de modo verdadeiro”, diz. Duas a três vezes por ano, volta ao Velho Mundo (Holanda, Itália, França) para “ver museus e assobiar a cultura”.

Um marco na divulgação do Uxua deveu-se à visita do fotógrafo Mario Testino, que estampou o hotel na “Vogue EUA”. A revista se tornou o chamariz para os estrangeiros conhecerem o hotel, cujo nome significa “maravilha” na língua pataxó. “Fizemos sucesso primeiro no exterior. Em Londres, em Nova York. Só depois começamos a ter um nome aqui”, lembra Bob.

Foto: Marta Tucci

A alegria das pessoas é um dos atrativos de Trancoso, acreditam os fundadores do hotel. “Elas vivem o dia de hoje, não pensam no amanhã. Tudo o que precisava depois de 21 anos de Diesel, quando minha vida era correr, correr, correr. Tendo sempre de pensar dois ou três anos à frente, o que se tornava muito frustrante”, explica Wilbert.

Bob tem uma veia política. É ligado à Conservation International (organização ambiental sem fins lucrativos que trabalha para proteger a natureza e promover o desenvolvimento sustentável) e participa de um movimento de empresários pela preservação de Trancoso. “Quem defende a conservação tem que ser otimista. A gente precisa acreditar que é possível manter a natureza e reverter o processo de destruição. O problema é que, no Brasil, as pessoas preferem ficar quietas e deixar acontecer.”