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Palavras perigosas: a linguagem como arma

Na maior parte dos últimos vinte e poucos anos, comecei a maioria das minhas aulas com uma proposta de escrita livre orientada. Citava nela o filósofo austríaco do século 20 Ludwig Wittgenstein, autor de uma frase muito apropriada para os nossos tempos: “Os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo”.

As palavras de Wittgenstein enfatizam como a linguagem define o que podemos e não podemos pensar, o equivalente a moldar nossa realidade. E o homem deve saber, pois viveu durante o Terceiro Reich, um regime que alcançou seu sucesso cruel em grande parte por controlar o discurso alemão. O regime americano atualmente no poder para um perigoso segundo reinado está trabalhando dia após dia não apenas para apagar palavras, mas também para perverter seus significados – nada menos que uma marca registrada de um governo autoritário.

Nos primeiros 100 dias de governo, o projeto MAGA [Make America Great Again/Faça a América Grande Novamente] deixou claro que certas palavras deveriam ser expurgadas de sites e comunicações federais – cagada óbvia à la Goebbels – e deveriam ser proibidas para uso por quase todos que buscam fundos do governo federal. Na época, o expurgo foi muito comentado – lembro de um relato completo e interativo no The New York Times. Mas, como muitas das transgressões notáveis desse regime, a história veio e foi.

A história veio – mas não seu impacto. Por exemplo, no mundo literário. A maioria dos escritores que conheço (incluindo eu) cortejou e/ou foi beneficiário de uma bolsa ou subsídio literário. As regras draconianas do MAGA sobre a linguagem resultaram em cancelamento de financiamento para organizações literárias e escritores, incluindo a colocação em risco de recursos importantes para o funcionamento do fundo nacional de apoio às artes, além de impor restrições graves sobre a linguagem usada em qualquer empreendimento acadêmico ou artístico que busque ajuda governamental. Seu objetivo não poderia ser mais claro: escreva sobre o que serve ao regime ou fique sem financiamento. Ou pior.

A coerção da linguagem pelos ministros da propaganda do MAGA deveria ser um alarme ensurdecedor e incessante. Nesse espírito, apresento as sete palavras mais perigosas de 2025:

1. Opressão

O que o regime atual está perpetrando senão opressão? Opressão não é o controle prolongado de modo cruel ou injusto? Eliminar essa palavra é uma tentativa de impedir que seus inúmeros danos dominem nosso discurso. O que aconteceria se a palavra opressão fosse, digamos, completamente apagada? Como, então, descreveríamos a soma destas ações: negar cuidados de saúde a pessoas trans; autorizar o serviço de imigração a capturar pessoas de grupos vilipendiados e enviar essas pessoas, às vezes sem devido processo, para gulags estrangeiros; apreender bilhões de universidades que permitem que estudantes e professores protestem contra o que a Rede Universitária para os Direitos Humanos chamou de “atos genocidas”…

2. Branco

Relacionado a qualquer um dos vários grupos populacionais considerados como tendo pigmentação clara da pele. Pense em outra palavra que seja mais uma ameaça aos ideais originários da América. Branco, como em quem faz parte da raça branca, ou tem proximidade com ela (e quem não tem?). Branco, como em poder e ressentimento, os motores ideológicos deste regime. Que a brancura não esteja na lista declarada do regime mostra a intenção de ocultar sua força animadora. Criticar a brancura hoje em dia é passível de ser recebido com a crítica falsa de racismo reverso. Chamar a atenção para a inclinação branca do MAGA, em forma de privilégio e/ou poder, já provocou sérios danos físicos, até mesmo assassinato.

3. Patriota

A palavra patriota – alguém que ama e apoia seu país – é perigosa porque tem sido usada como álibi para abusos incontáveis. Nestes tempos perigosos, os verdadeiros patriotas não são generais de quatro e cinco estrelas ou heróis de guerra, mas acólitos do MAGA. De acordo com a propaganda atual, um verdadeiro patriota é alguém que pretende retomar seu país, não importa se essa recuperação de vantagem conspiratória apresenta ilegalidade, violência, morte; não importa se essa apreensão inclui uma tentativa de golpe. Na verdade, os ataques de 6 de janeiro – a forma como o MAGA enquadrou os manifestantes como heróis dignos de perdão – foram essenciais para perverter o significado de patriota, para distorcer o que a proteção dos ideais declarados da América realmente parece.

4. Mérito

Caráter, conduta ou qualidades que indicam que uma pessoa merece algo – é uma palavra no coração de grande parte da obra do MAGA. Deixe-os dizer: é quase impossível para alguém que não seja um homem branco cisgênero (acredite, é um termo que eles odeiam) merecer qualquer coisa. Significando que pessoas que não se encaixam nessa identidade foram classificadas como pouco mais do que destinatários indignos de caridade baseada em identidade. Para provar o desrespeito do MAGA pelo verdadeiro significado de mérito, observe as deficiências gritantes de seus membros no governo. Em sua ordem mundial, mérito é uma recompensa por lealdade, uma degradação crucial para seu objetivo de inflamar o ressentimento branco.

5. DEI

Usar os termos DEI (diga a coisa toda: Diversidade, Equidade e Inclusão) agora é a maneira mais rápida de perder financiamento federal, o que – quaisquer que sejam os pontos fortes e fracos dos programas DEI – me parece uma violação da Primeira Emenda da Constituição. Ataques ao DEI foram transformados em reduções drásticas, se não no fechamento de departamentos inteiros, mas no desmantelamento de organizações, com demissões direcionadas. Ao silenciar o privilégio branco para o reino do não dito, a corrupção do DEI ajuda a persistência da desigualdade, serve para entregar o país de volta às mãos daqueles que afirmam possuí-lo, como se os eternos desprovidos alguma vez o tivessem.

6. Republicano

Que nomeia um dos dois principais partidos políticos da América, é uma palavra de alto risco. Não menos por sua imprecisão em caracterizar um membro do partido hoje em dia. Um republicano descreve qualquer pessoa, de um moderado razoável a um supremacista branco uber-racista secessionista. De acordo com um relatório de 2025 do Projeto Vanderbilt sobre a democracia americana, 44% de todos os republicanos agora se identificam como MAGA. A sua forte presença no Partido Republicano representa uma séria ameaça ao que resta de nossa democracia.

7. Palestina

Um substantivo próprio para completar a lista. Dizer a palavra Palestina – um povo sitiado – ou, mais precisamente, a frase “Libertar a Palestina”, é proferir sílabas agora capazes (se não prováveis) de fazer alguém ser acusado de antissemitismo; expulso de sua universidade; demitido de seu emprego ou boicotado em sua indústria; retirado de sua casa e preso por autoridades federais; banido deste país com ou sem devido processo… Nomeie uma palavra que colha mais consequências.

Esta decadência americana planejada não é uma coisa nova no planeta Terra. As táticas são tão testadas que o grupo bipartidário sem fins lucrativos Protect Democracy publicou “O Manual do Autoritarismo” para expor os métodos ponto a ponto. Descreve sete táticas comuns de regimes autoritários: “Usar comunidades vulneráveis como bode expiatório, fraudar eleições, incitar a violência, politizar instituições independentes, disseminar desinformação, engrandecer o poder executivo, reprimir a dissidência.” Todos os pontos ticados!

Além disso, observe que o principal instrumento para alcançar todos esses objetivos é a linguagem. “Para cima é para baixo e para baixo é para cima”, um dos meus amigos poetas me enviou uma mensagem de texto como resposta à situação da América. O que interpretei como a chicana do MAGA de ter conseguido alterar aspectos de nossa realidade nacional. De acordo com uma pesquisa, a maioria dos apoiadores do MAGA está preocupada com fraude eleitoral. Adicione a essa estatística reveladora outra pesquisa que aponta que 40% dos americanos acreditam que uma guerra civil na próxima década é algo entre “muito provável” ou “um pouco provável”.

Tudo para dizer, é evidente para mim, que o MAGA pretende esvaziar a linguagem crítica de seu verdadeiro significado e preenchê-la com qualquer substância que melhor se adapte ao MAGA. E isso, compatriotas, é um P-E-R-I-G-O.

Mitchell S. Jackson é um autor vencedor do Prêmio Pulitzer e colu- nista regular da “Esquire US”.