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O motorista sumiu: como foi minha experiência com um carro Waymo em Los Angeles

Fui a Los Angeles acompanhar o Mundial de Clubes e acabei vivendo grandes emoções. Meu caçula estava na cidade para um intercâmbio na UCLA. Por meio de um programa da PUC, passou seis meses na universidade americana, de janeiro a junho. Cheguei após o fim do período das aulas, mas pude visitar orgulhoso o campus. Antonio foi o primeiro da minha linhagem que experimentou, ainda que num curto período, como é estudar numa universidade do primeiro mundo. Ele me apresentou o ginásio, as salas de aula, a biblioteca e me contou impressionado como os estudantes levam as coisas a sério, como são focados, como a biblioteca fica lotada até a madrugada quando estão em período de provas. Uma lição para a vida. Espero que tenha aprendido que é possível levar as coisas a sério sem estar na Califórnia.

Outra emoção me aguardava. Aconteceu no Rose Bowl em 19 de junho, um dia após meu aniversário. Meu melhor presente de aniversário saiu dos pés de Igor Jesus. Meu Botafogo surpreendeu o mundo e jogou no lixo uma montanha de memes ao vencer o gigantesco Paris Saint-Germain. Estava lá, mas foi difícil acreditar que aquilo estivesse acontecendo. Estava sonhando, não era possível. Pedi a meu filho para me beliscar, doeu. Concluí que estava acordado e que tudo era verdade. Se o mundo acabasse naquele instante, seríamos campeões do mundo. Havia uma chance. Israel bombardeou o Irã e poderia ter deflagrado a Terceira Guerra Mundial. Mas isso não aconteceu. O Mundial de Clubes seguiu, fomos derrotados e o sonho acabou. Mas aquele gostinho delicioso nunca mais me abandonou.

Em meio a tantas sensações excitantes, uma novidade me chamou atenção. Marquei um restaurante e deixei que meu filho cuidasse do nosso transporte. Ele não me falou nada e, em vez de um Uber, chamou um Waymo. Estávamos na porta da casa, quando dobrou a esquina um carro estranho. Parecia maior que os demais, devido aos acessórios que não identifiquei de pronto. Ainda comentei: — Olha que carro estranho! Acho que o carinha exagerou nos penduricalhos. Isso tudo é vontade de aparecer? Meu filho respondeu: — Nosso carro tá chegando. — Onde? — É esse que tá vindo ali. — O quê? A gente vai nessa geringonça?

Chamá-lo de geringonça foi uma ofensa. Um Jaguar novinho em que nunca havia entrado. Nem em sonho poderia imaginar um “Uber Black” daquele nível. Coisas da Califórnia. O veículo é por si mesmo um outdoor do serviço. Impossível confundi-lo com os carros conduzidos por mortais. Equipado com 29 câmeras externas e outras tantas internas, conta também com sensores de radar para identificar objetos e obstáculos.

O Waymo ainda está restrito a poucas cidades dos Estados Unidos, no momento, apenas Los Angeles, São Francisco, Atlanta, Phoenix e Austin. Há um plano de expansão prevendo Washington DC, Miami e Dallas. Inicialmente conhecido por “Projeto de Carro Autônomo do Google”, a empresa Waymo é de propriedade da Alphabet Inc, também proprietária do Google. Concebido em 2009, o protótipo passou por uma série de estudos e testes, até que em 2020 foi lançado o primeiro serviço de táxi autônomo em Austin, Texas.

Não são muitos veículos autônomos que circulam em Los Angeles. O preço da viagem chega a ser 30% menor em relação ao Uber Black. Mas nem sempre estão disponíveis, sua chegada pode demorar. Talvez por conta dos jogos do Mundial de clubes, mais viaturas eram vistas circulando na cidade. Apesar da economia que proporciona, nem todo passageiro se sente seguro para viajar num carro sem motorista. A novidade assusta. Porém, estatísticas provam ser um transporte seguro. O número de acidentes é bem menor que o dos automóveis tradicionais. Afinal, nunca terá um bêbado no comando. Assim como as mulheres estão livres de qualquer importunação. Mas não estão 100% livres de problemas. Erros de software foram relatados e até situações curiosas ocorreram. Um passageiro levado até um aeroporto não conseguiu sair do carro, pois ele chegou no estacionamento e ficou dando voltas. O passageiro perdeu o voo.

Não tive nenhum problema em minhas viagens. Entrei e saltei exatamente onde desejava. Quando o carrão se aproximou pela primeira vez, confesso que fiquei acanhado de entrar. Era muito chamativo. Pura bobagem, pois na Califórnia, é preciso muito mais para chamar atenção do público. Viajei com meu filho. Entramos, nos acomodamos. O carro só deu a partida depois que afivelamos os cintos de segurança e demos o comando para seguir.

Apesar de saber que pedimos um carro autônomo, é inevitável estranhar não ter uma pessoa ao volante. Ver o volante girando sozinho para a esquerda e para a direita dá a impressão de que é um truque. Uma pessoa espírita pode tirar conclusões esotéricas. Um monitor nos mostra uma representação das ruas e do movimento do veículo, assim como podemos acompanhar o movimento no nosso entorno. O carro parou em todos os sinais, pudemos “ver” na tela as pessoas atravessando, com detalhes. Uma moça passou correndo, puxando seu cachorrinho, um pai atravessou com seu filho de bicicleta. Pudemos assistir a tudo na tela e, olhando pela janela, nos certificar que o computador do Waymo não inventou nada. Outro dado interessante. Apesar de o carro ter parado ao acender o sinal amarelo, a partida só foi dada depois que o movimento na faixa de pedestres cessou. Uma pessoa retardatária correu nos últimos instantes, o sinal abriu, mas nosso carro aguardou pacientemente que ela alcançasse a calçada. Não buzinou, muito menos a xingou.

Um amigo, ao nos ver sentar no banco traseiro, perguntou por que ninguém foi na frente. Respondi que preferia viajar com privacidade. Agora, se você é do tipo que gosta de bater papo com motorista, esqueça o Waymo. Ele não vem equipado com uma Alexa. Não serve de ombro amigo, não discute futebol, nem dá dicas de bons restaurantes. E nem adianta perguntá-lo se ele acha justo desempregar imigrantes. Se tem opinião a respeito, guarda para si.

Os estrangeiros, ameaçados pela política deportadora do presidente Orange Trump, veem o Waymo como um parceiro do ICE – Immigration and Customs Enforcement, um verdadeiro pesadelo para latinos e africanos. A truculência com que têm sido tratados torna evidente o quanto não são mais bem-vindos na América. Em junho passado, as ações se intensificaram, agentes invadiram moradias, fábricas e estabelecimentos comerciais à procura de cidadãos em condição irregular no país. Como muitos desses trabalham conduzindo Uber, o veículo autônomo tornou-se alvo de revolta. Diversos deles foram queimados, pois não querem a propagação da solução para a falta de mão de obra devolvida para seus países de origem.

Você pode escolher a trilha sonora que vai embalar sua viagem, porém não tem a menor chance de alterar o trajeto, uma vez iniciada a corrida. Não tem essa de “corta por ali”, “entra à direita que eu conheço bem, lá na frente tá tudo engarrafado”. O Waymo não dá a menor atenção aos palpites do passageiro.

Fiquei imaginando quando surgiram os elevadores automáticos. Provavelmente muita gente desconfiou da eficácia e da segurança do equipamento. Mas ele logo substituiu os antigos e extinguiu a profissão dos ascensoristas. Veículos autônomos exigem um alto investimento em tecnologia, mas parecem ser uma tendência irreversível. Acho que essa novidade vai demorar para ser introduzida no Rio. Imagina se o percurso incluir uma via perigosa e você, ali dentro, sem poder alertar o motorista fantasma. Muitos testes serão necessários até que os carros estejam familiarizados com as peculiaridades cariocas.

Ao encerrar a corrida, as portas foram destrancadas e fomos liberados. O aplicativo logicamente nos dispensou de dar uma gorjeta ao motorista. No futuro, os programadores podem reivindicar a remuneração extra. O automóvel me lembrou de recolher meus pertences antes de sair. Não me recordo se agradeceu a preferência. Por força do hábito, me despedi educadamente, mas não recebi nenhuma mensagem em retribuição. Certamente, o Waymo já estava com a cabeça voltada para a próxima corrida.

*Helio de La Peña é humorista e engenheiro de produção formado pela UFRJ