É inegável que nas últimas décadas o crime organizado no Brasil passou por um processo preocupante de sofisticação de seus mecanismos de lavagem de dinheiro, treinamento de pessoal, aquisição de armamentos e diversificação de atividades ilícitas em territórios surrupiados do poder público. A bandidagem, enfim, não é mais aquela do tempo do lendário “Cara de Cavalo” (1941-1964), a não ser pela excentricidade dos codinomes que ainda hoje cada facção escolhe para identificar seus membros de destaque na mídia. Pode em pleno século 21 uma liderança importante do temido Primeiro Comando da Capital (PCC), combatente com pegada no hall da fama dos mais procurados do País, atender pela alcunha de “Mijão”? Tem apelido que, sinceramente, tira a seriedade até da notícia: “Morre em tiroteio o traficante ‘Cheio de Ódio’, de Copacabana”; “Preso ‘Peida Leite’ no Espírito Santo”; “Polícia corre atrás de ‘Pé de Pano’ na Bahia”.
O bagulho é anacrônico! Essas máfias urbanas desafiam a crescente tendência nacional que aponta para a futura extinção do uso de apelidos em todo território nacional. Vivemos, como se sabe, numa época em que o próprio “Careca do INSS” – de outro patamar de vulgos foras da lei – tentou impedir na Justiça que o chamassem publicamente de “Careca do INSS”. Pura vaidade de colarinho branco! Todavia, motivos bem mais nobres, de inspiração politicamente correta, baniram de escolas, ambientes de trabalho, botequins da esquina e adjacências toda e qualquer forma de tratamento interpessoal que mascare com humor duvidoso conteúdos de fundo racista, discriminatório ou moralmente constrangedor. Por mais que a intenção seja carinhosa ou inocente, recomenda-se não chamar alguém muito magro, por exemplo, de “Filé de Borboleta”. Quem sofreu na 5ª série por ser conhecido entre amiguinhos como “Quatro Olho”, “Baleia” ou “Varapau” viveu na época errada.
Por razões outras – sei lá quais! –, jogador de futebol em atividade raramente tem nome dissílabo impresso às costas da camisa que veste desde que saíram de campo Pelé, Mané, Zito, Didi, Tostão, Dida, Kaká, Pepe, Vavá, Zico, Dunga, Manga, Cafu, Zinho… Dos conhecidos pelo diminutivo – Jairzinho, Ronaldinho, Edinho, Quarentinha, Pedrinho, Afonsinho, Juninho isso, Juninho aquilo –, também sobrou só um Tiquinho aqui, outro ali. Os times agora estão escalados com Hugo Souza, Gabriel Magalhães, Matheus Cunha, Roberto Firmino, Léo Ortiz, Evertton Araújo, Aníbal Moreno, Andreas Pereira, Robert Renan, Raphael Veiga, Alan Patrick, Samuel Xavier, Arthur Cabral… Chama-se Lucas Ovídio – nome de craque no futebol moderno – o menino que o Vasco anuncia como o Pelé do seu time sub-17.
Nome composto no Comando Vermelho é “Peixe Bunda”, “Fé em Deus”, “Sem Amor”, “Canela de Vidro”, “Irmão Metralha”… Entre recrutas e vozes de comando, todo mundo no CV é vulgo alguma coisa: vulgo “Anal”, vulgo “Descontrolado”, vulgo “Açougueiro”, vulgo “Safadinho”, vulgo “Da Mamãe”, vulgo “Chulé”, vulgo “Cachorrão”, vulgo “Cara de Rato”, vulgo “Bunda Azul”, vulgo “Quebra Caixote”, vulgo “Revoltado”, vulgo “Cabeça de Sabão” – todos com alcunha associada ao registro civil verdadeiro no site “Disque Denúncia”. Algumas figurinhas carimbadas desse álbum de foragidos se apropriam da marca registrada de celebridades: a polícia procura por Mbappé, Messi, Faustão, Pedro de Lara e… Dilma (vulgo de João Vitor Machado).
Apelido de político já foi recurso de campanha usado não necessariamente para atingir a honra, a honestidade ou qualquer condição identitária de outro candidato. Leonel Brizola se consagrou nessa arte de lançar epítetos que colavam como chiclete em seus adversários: Lula, “o Sapo Barbudo”; Moreira Franco, “o Gato Angorá”; Anthony Garotinho, “o Queijo Palmira”; Paulo Maluf, “Filhote da Ditadura”. O “Velho Caudilho”, como ficou conhecido no boca a boca das urnas o político trabalhista fundador do PDT, apelidava seus oponentes com humor só comparável ao de José Simão (“Folha de SP”), que nas eleições de 2002 carimbou para sempre Geraldo Alckmin com a alcunha “Picolé de Chuchu”.
O próprio termo “apelido” já foi empregado em expressão popular para superlativar alguma característica observada sobre alguém. “Mentiroso é apelido” – dizia-se (acho que os mais velhos ainda dizem) quando o mentiroso supracitado era muuuiiito mentiroso. Bem antes de virar recurso de uso mais habitual na criminalidade, várias celebridades brasileiras ganharam fama com algum tipo de designação informal que dispensava a combinação de nome e sobrenome. José Abelardo Barbosa de Medeiros e José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, dois gênios da televisão brasileira, serão para sempre lembrados como Chacrinha e Boni, simplesmente assim. Muita gente não liga o nome Antônio Carlos de Almeida Castro à pessoa do Kakay, como se tornou notório o advogado criminalista com extensa folha de serviços prestados nos tribunais a políticos, empresários e pilantras encrencados com a Justiça.
O tema aqui proposto rende muita história: de “Alexandre, o Grande” a “Felipe, o Belo” ou “Ricardo Coração de Leão”, os livros estão repletos de personagens célebres identificados por qualificações nem sempre elogiosas. Que o diga “Joana, a Louca”! Em muitos casos – isso não é de hoje –, a crueldade do apelido é pura fake news: abstêmio de carteirinha, José Bonaparte ganhou de seus detratores na Espanha, onde foi rei nomeado pelo irmão Napoleão, a alcunha de “Pepe Botella” (Zé Garrafa), como por lá chamavam no início do século 19 alguém “Pé de Cana”, “Bebum”, “Pinguço”, “Pau D’Água”, “Pudim de Cachaça”… Pura sacanagem! Mas nenhum risco de bullying, por mais severo que seja, justifica a criminalização do apelido em curso. Deu para entender aonde quero chegar com essa conversa, “pastel”?
Tutty Vasques é jornalista metido a humorista – e vice-versa