Basta um reles exemplo para convencer qualquer um de que Chico Buarque é um gênio. O compositor colocou a palavra escafandristas num verso de amor! O termo tem origem no grego “skaphandros”, na qual “skaphe” significa “barco” ou “casco” e “andros” significa “homem.” Refere-se a pessoas que usam escafandro, um traje especial para mergulho em grandes profundidades. Existe imagem mais distante do amor?
Não para Chico Buarque. Está lá na canção “Futuros Amantes”, do álbum “Paratodos”, de 1993:
“Não se afobe, não
Que nada é pra já.
O amor não tem pressa.
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios no ar.
E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa…
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos…”
Lindo. E tem mais, porque a ciência caminha para comprovar que, mais do que um poeta genial, Chico Buarque pode ser enquadrado na categoria de profeta do meio ambiente. Sim, o Rio está prestes a virar uma cidade submersa.
O Rio de Janeiro e outras grandes cidades costeiras do Brasil enfrentam, de forma cada vez mais aguda, os efeitos da mudança climática, ampliados pela urbanização acelerada e pela ocupação desordenada de áreas de risco. Dois relatórios – um genérico sobre a vulnerabilidade e os desafios das cidades costeiras e outro focado nos dados do Rio de Janeiro – se unem para pintar um cenário de alerta para a metrópole carioca e seus arredores.
Na Zona Costeira da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, que abriga cerca de 11,7 milhões de habitantes e concentra aproximadamente 70% do PIB do estado, os mapas produzidos pelo Instituto Pereira Passos identificam mais de 1.200 km² de áreas de baixa elevação, terrenos equivalentes a 1.200 estádios do Maracanã. Essas regiões estão particularmente suscetíveis a inundações, enxurradas e deslizamentos, fenômenos intensificados pelo aumento do nível médio do mar e pela retração da linha de costa – problemas históricos, hoje agravados pelo efeito ilha de calor e pela carência de áreas verdes.
Os dados compilados mostram que, embora haja divergências nos modelos climáticos sobre a quantidade de precipitação para determinadas estações, o panorama para o Rio de Janeiro é preocupante. A tendência é de que os extremos climáticos se tornem mais intensos, com maior frequência de noites e dias quentes, além de eventos de chuva concentrados em curto espaço de tempo, os quais sobrecarregam os sistemas de drenagem. Essa combinação pode levar a inundações repentinas e à deterioração da qualidade da infraestrutura urbana, afetando desde portos e aeroportos até redes viárias e sistemas de saúde.
Complementando esses dados, relatos de outros centros urbanos costeiros – como Santos, Fortaleza, Recife e Salvador – reforçam que os impactos das mudanças climáticas não se limitam à elevação do nível do mar. Em Santos, por exemplo, aumentos na intensidade dos ventos e das ressacas já estão inundando áreas próximas à orla, enquanto em Recife as enchentes históricas e os deslizamentos remetem a um passado que se projeta de modo alarmante para o futuro. Tais fenômenos reforçam a necessidade de intervenções urgentes.
Na capital fluminense, medidas de adaptação destacam-se como essenciais para mitigar os efeitos previstos. Especialistas recomendam a implantação de sistemas de alerta mais robustos, o reforço de obras costeiras – como diques e barreiras de proteção – e a integração de políticas urbanas que considerem a vulnerabilidade socioambiental. Além disso, estratégias baseadas em soluções naturais, como a recuperação e a conservação de manguezais e dunas, podem fornecer uma proteção “verde” contra a erosão e a invasão do mar.
Enquanto órgãos como o Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) e o Instituto Pereira Passos enfatizam a urgência de reformular os planos de desenvolvimento urbano na era das mudanças climáticas, iniciativas recentes, como o Plano Municipal de Adaptação à Mudança do Clima em cidades costeiras, sinalizam o caminho a ser seguido. As ações, que vão desde a melhoria de redes de monitoramento até campanhas educativas e a requalificação de espaços urbanos, mostram que o combate ao aquecimento global passa também pela cooperação entre governo, sociedade civil e setor privado.
Dados complementares de agências internacionais e de órgãos nacionais como o IPCC, a CEPAL e o IBGE corroboram que manter o aquecimento abaixo de 2°C – ou idealmente limita- do a 1,5°C – é uma meta tecnicamente possível, embora exija esforços imediatos de mitigação e adaptação. Dessa forma, as cidades costeiras do Brasil, e especialmente o Rio de Janeiro, precisam urgentemente de uma abordagem integrada que combine infraestrutura robusta, políticas urbanas inclusivas e a valorização dos ecossistemas naturais para reduzir riscos e preservar a qualidade de vida da população.
Os escafandristas virão, mas, pelo visto, sem poesia alguma. Talvez seja o caso de se afobar sim.