Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

s

Quem disse que cabelo não sente?

Quando o couro cabeludo envelhece, os fios sofrem: a perda de colágeno, a exposição ao sol, a poluição e o estresse alteram o microambiente dos folículos, afinando, fragilizando e tirando o brilho – um lembrete de que cuidar da raiz é essencial para manter a vitalidade

De repente, você começa a notar os fios mais finos, com uma textura estranha, com menos densidade e volume. Bem, aqui vai uma verdade de deixar o cabelo em pé: a pele do couro cabeludo é tão vulnerável aos danos do sol, estresse, poluição e excesso de produtos quanto a do seu rosto. Como proteger a região antes que os danos causados pelo passar do tempo se tornem visíveis nos seus cabelos? Continue lendo.

Tempo, tempo, tempo

A condição do seu couro cabeludo influencia tudo – desde a rapidez com que seu cabelo cresce até a quantidade de fios que você perde diariamente. É ele que mantém o cabelo macio, brilhante e forte. À medida que a produção de colágeno e óleo natural diminuem com a idade, os fios inevitavelmente perdem um pouco da maciez e do brilho. “O couro cabeludo pode, sim, apresentar um processo de envelhecimento precoce, em parte pela alta atividade metabólica dos folículos pilosos e pela intensa exposição a fatores externos (radiação UV, poluição, agentes químicos)”, diz Erick Omar, dermatologista especialista em tricologia. Ele conta que os folículos pilosos mantêm durante toda a vida uma produção contínua de fios de cabelo. Cada ciclo pode durar de cinco a oito anos, seguido por uma pausa de quatro a seis meses para substituição do fio antigo. “Com o tempo, ocorre perda da função do couro cabeludo e alteração de seu microambiente, afetando diretamente a vitalidade do cabelo. Os primeiros sinais incluem afinamento progressivo (miniaturização), fios mais frágeis e quebradiços, perda de brilho e densidade, além de descamação e oleosidade irregular. Isso expõe ainda mais o couro cabeludo à radiação solar, poluição e outros fatores de dano”, alerta.

É muito comum que homens não incluam o couro cabeludo em sua rotina de cuidados. Esse descuido favorece acúmulo de sebo, resíduos de cosméticos, proliferação microbiana e inflamação crônica, que a longo prazo podem acelerar processos de alopecia androgenética e dermatite seborreica persistente. “O que acontece com frequência no caso dos homens é a demora na busca por tratamento, o que nos casos de alopecia pode acabar permitindo uma maior progressão da condição. Tempo é cabelo, então quanto antes se iniciar o tratamento da alopecia, melhores os resultados”, diz Luciana Passoni, médica especialista em ciência capilar.

O microbioma esquecido

Assim como a pele, seu couro cabeludo tem seu próprio microbioma – um delicado ecossistema de micro-organismos. A diferença? Ao contrário do restante da sua pele, o microbioma do couro cabeludo precisa lidar com milhares de folículos e glândulas sebáceas. Esse sebo mantém o cabelo brilhante e nutrido – mas, se houver desequilíbrio, pode rapidamente causar irritação, folículos bloqueados e fios frágeis. “Nesse caso, há maior proliferação de fungos como a ‘Malassezia’, responsáveis pela caspa e pela dermatite seborreica, além de inflamação que enfraquece os fios e piora os quadros de queda. Para manter o equilíbrio, é importante lavar o cabelo de forma regular, evitar o excesso de finalizadores que obstruem a raiz, manter boa alimentação e controlar o estresse. Também evite o uso frequente de bonés”, fala a dermatologista e tricologista Ana Carina Junqueira.

Estresse, dieta desbalanceada e consumo de álcool realmente cobram seu preço. “Uma dieta pobre em proteínas, ferro, zinco e vitaminas do complexo B compromete a produção da queratina, enquanto o estresse aumenta a liberação de cortisol, hormônio que estimula a queda difusa dos fios. O álcool em excesso prejudica a absorção de nutrientes e o sol acelera o envelhecimento e inflamações do couro cabeludo”, enumera ela.

 

Ilustração: Abiurro

 

Scalpcare – cuidando do couro cabeludo

Você trata seu rosto com uma rotina de skincare, certo? Então, por que não cuidar do seu couro cabeludo? Dar a ele essa mesma atenção é o segredo para raízes e cabelos mais fortes e saudáveis por mais tempo. Com ingredientes e técnicas de alta performance antes reservados a cuidados faciais, o scalpcare entrou oficialmente para a lista do skincare. O que procurar? “O couro cabeludo não deve ser tratado como mera extensão da pele do rosto, pois tem características próprias: maior densidade de folículos, glândulas sebáceas ativas e microbioma distinto”, explica Erick. Para couro cabeludo seco, ativos como ácido hialurônico surgem em séruns e máscaras para hidratar e manter a descamação sob controle. “Manter a barreira cutânea íntegra e hidratada é essencial não apenas para a saúde da pele, mas também para o bom funcionamento dos folículos”, avisa Erick.

Cafeína é capaz de estimular folículos lentos, enquanto peptídeos e biotina fornecem nutrientes que promovem o crescimento capilar mais forte e volumoso ao longo do tempo. “Temos os exossomas, que podem estar no tratamento homecare e em clínica, assim como rotinas com soro capilar e leave-in para equilibrar a microbiota e estimular o crescimento de forma funcional, principalmente em casos que já apresentam queda capilar e alopecia”, conta Luciana.

Para pele sensível, a pedida é a alantoína, aveia coloidal e niacinamida, para reduzir vermelhidão, coceira e irritação. O uso de protetor solar no couro cabeludo não é exagero, é uma necessidade, especialmente em áreas mais expostas como entradas, topo da cabeça e risca aparente. “A exposição solar crônica aumenta o risco de envelhecimento precoce, queimaduras e até câncer de pele. Hoje já existem fórmulas leves em spray ou pó translúcido, que são práticas, não deixam resíduos oleosos e se adaptam melhor ao uso diário. Para quem tem alopecia ou fios muito ralos, o ideal é combinar o uso de protetor com chapéus ou bonés quando a exposição for prolongada”, afirma Ana Carina. Pré, pró e pós-bióticos nutrem, auxiliam e reequilibram o ecos- sistema do couro cabeludo, combatendo a caspa, a irritação e promovendo a harmonia geral da região. “A esfoliação é muito útil, sim, porque remove o acúmulo de células mortas, excesso de sebo e resíduos de cosméticos que podem obstruir os folículos”, diz Ana Carina. Isso melhora a oxigenação local, facilita a penetração de ativos e contribui para a prevenção de quedas relacionadas à inflamação ou oleosidade. A frequência varia de acordo com o tipo de couro cabeludo, mas pode ser feita a cada quinze dias em pessoas com tendência à oleosidade e mensalmente em quem tem couro cabeludo mais seco ou sensível.

Há também procedimentos feitos em consultório com eficácia comprovada. “O microagulhamento é eficaz quando associado a minoxidil ou PRP, aumentando a densidade capilar”, fala Erick.

Ele age na estimulação de fatores de crescimento e no aumento da penetração de ativos, e é bastante indicado em proto- colos para queda capilar. “A fototerapia com LED, especialmente em faixas de luz vermelha e infravermelha, também apresenta evidências científicas de melhora na densidade e na qualidade dos fios, já que estimula a atividade celular”, diz Ana Carina.

Há ainda muitas novidades para tratamento dos folículos, entre elas o PP405, uma molécula descoberta por pesquisa- dores da Universidade da Califórnia que promete despertar folículos adormecidos e trazer de volta o crescimento natural dos fios, especialmente em casos iniciais de alopecia androgenética. “Ainda em fase 2 de testes clínicos, o PP405 representa uma das abordagens mais inovadoras na luta contra a calvície – um avanço que une ciência, metabolismo celular e regeneração tecidual”, conta a dermatologista Alessandra Fraga.

Falou-se também, em um meeting, em Boston (EUA), dos silenciadores genéticos. A ideia é “silenciar” (inibir) a expressão de um gene específico que contribui para a queda de cabelo – no caso da calvície androgenética, o foco é o receptor de andrógeno (AR), resultando em uma menor resposta ao estímulo hormonal que causa miniaturização capilar. “Os silenciadores genéticos representam uma nova era no combate à calvície: tratamentos que atacam diretamente a causa molecular em vez de apenas tratar sintomas.”

E tem um laser novo que acabou de ser liberado pelo FDA para cabelo, capaz de acordar folículos adormecidos antes que eles atrofiem de vez. “O FoLix, da Lumenis, é o primeiro laser fracionado não ablativo aprovado pelo FDA para o tratamento da alopecia androgenética. Ele utiliza tecnologia ResurFXTM adap- tada para o couro cabeludo, atuando por bioestimulação térmica controlada das unidades foliculares. O resultado é melhora da microcirculação, oxigenação e reativação metabólica dos folículos em miniaturização. Estudos preliminares mostraram aumento da espessura do folículo e redução da infla- mação que costuma estar presente na alo- pecia androgenética”, adianta Alessandra. A mensagem é clara: se você quer um cabelo mais forte, brilhante e saudável no futuro, o trabalho começa na raiz. Literalmente.