Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

s

Márcio Kogan: “O modernismo é a alma da arquitetura brasileira”

O fundador do Studio MK27 revela como o cinema moldou seu estilo premiado, analisa o urbanismo de São Paulo e explica por que a empatia com o cliente é mais importante do que grandes obras monumentais

Um dos arquitetos brasileiros mais influentes do mundo, Márcio Kogan combina o rigor técnico com uma sensibilidade cinematográfica que define o Studio MK27, seu premiado escritório de arquitetura.

Nesta entrevista exclusiva a Luciano Ribeiro, no sexto episódio do Esquire Podcast, Kogan revisita sua trajetória — do trauma da perda do pai na infância ao fracasso no cinema — para explicar como se tornou uma referência global em design e estética. Aos 73 anos, ele reflete sobre o morar contemporâneo, a coragem de dizer “não” a projetos neoclássicos e por que o legado modernista continua sendo a base de sua visão criativa em 2025.

Assista ao episódio completo no link abaixo.

 

Se preferir, leia a entrevista na íntegra:

 

Luciano Ribeiro: Nesse episódio, recebemos aqui Márcio Kogan, arquiteto de 73 anos, um dos mais importantes do país e capa da nossa edição. Vamos ter uma conversa sobre urbanismo, profissão, família, São Paulo e muito mais. Márcio, prazer recebê-lo aqui. Estamos muito orgulhosos de ter feito essa capa com você, espero que tenha gostado. Você nasceu nos anos 50, em 1952, e viu o modernismo brasileiro de perto. Como você olha para trás hoje e vê como ele influenciou a sua arquitetura?

Márcio Kogan: Em primeiro lugar, obrigado pelo carinho seu e de toda a equipe, a energia foi incrível. Uma das memórias mais antigas que eu tenho, eu devia ter uns 8 anos, era ver meu pai e minha mãe assistindo na televisão a inauguração de Brasília. Meu pai foi um arquiteto e engenheiro, ele construía e desenhava modernista; fez o projeto do Mirante do Vale, o edifício RCI, que é quase da mesma época do Copan. Ele resolveu construir uma casa radicalmente modernista, muito parecida com a Villa Arpel do filme “Meu Tio”, do Jacques Tati. Às vezes eu falo que o Tati copiou a casa que meu pai fez, cheia de tentativas tecnológicas. Era aquele final dos anos 50, o sonho de apertar botões, e nada funcionava direito, como na casa do Tati. Eu vivi nesse ambiente. Meu pai desenhou tudo naquela casa, inclusive as obras de arte, e eu também sou obcecado por desenhar tudo; é o prazer do desenho.

Márcio Kogan: Na escola de arquitetura eu me desprendi disso e comecei a pensar em utopias, em grupos como o Archigram, que estavam repensando o mundo de forma teórica. Eu não gostava do modernismo porque os professores empurravam aquilo. Quando me formei, descobri que não sabia fazer nada na prática. Aí voltei a entender esse modernismo e a importância dele. Para mim, hoje, acho que foi o movimento modernista mais importante do mundo. Teve Le Corbusier e Mies van der Rohe com trabalhos absurdos, mas como movimento, o brasileiro foi muito forte. Sou impregnado disso; o modernismo é a nossa alma. Você não vai ver nascer no Brasil um Frank Gehry ou uma Zaha Hadid, porque o modernismo é o nosso DNA.

Luciano Ribeiro: É interessante você falar isso. Conversando com franceses, eles dizem que Paris é uma cidade tão difícil de construir que dificulta a criatividade. Aqui em São Paulo você pode construir tudo, mas existe essa herança modernista que paira sobre todos os arquitetos.

Márcio Kogan: Eu acho isso bem-vindo. Sabemos lidar com isso. É um desenvolvimento do que foi, com novas tecnologias e novas necessidades. É um progresso do que foi o modernismo nos anos 40 e 50.

Luciano Ribeiro: Tenho curiosidade sobre o seu início. Hoje você tem centenas de prêmios, é um dos arquitetos mais importantes do mundo, mas a vida de arquiteto não é fácil. Você me disse uma vez que, aos 30 e poucos anos, chegou a pensar em desistir.

Márcio Kogan: O início é terrível, não gosto nem de lembrar. São momentos angustiantes. Nos meus primeiros 10 ou 15 anos profissionais, eu achava que podia fazer muito mais do que estava fazendo, mas não tinha os clientes que me apoiariam. No Brasil temos poucos concursos públicos, o que seria importante para dar oportunidade ao pessoal jovem. Naquela época, eu estava fazendo cinema. Fiz vários curtas com o Isay Weinfeld e, em 1987, fizemos um longa chamado “Fogo e Paixão”. Eu não sabia se ia ser arquiteto ou cineasta. O longa foi um fracasso, perdi dinheiro, perdi todo o escritório de arquitetura que tinha na época. Era uma equipe pequena, umas sete ou oito pessoas. Depois disso, decidi: vou ser arquiteto 24 horas por dia.

Luciano Ribeiro: O fracasso no cinema acabou deixando a arquitetura como única opção?

Márcio Kogan: Sim, e eu acho que o cinema me ensinou a fazer arquitetura e a arquitetura me ensinou a fazer cinema. O que o estúdio é hoje vem desse passado. Tem influência nas proporções das obras, muito influenciadas pela tela de cinema, sempre mais alongadas. A importância da luz, o trabalho em equipe… eu reinventei o jeito de fazer arquitetura em grupo. No meu escritório, todos participam, desde o estagiário até o veterano. Penso na obra como o roteiro de um filme, me coloco como um personagem usando o espaço. Todo aquele desastre do cinema foi para o bem.

Luciano Ribeiro: Você falou dessa “coisa bonita” da arquitetura. Recentemente estive em Naoshima, no Japão, e fiquei emocionado com o projeto do Tadao Ando. Quando foi a última vez que a arquitetura te emocionou?

Márcio Kogan: Talvez lá também. O espaço do Ryue Nishizawa com uma artista em Teshima. É o Museu de Arte de Teshima. Eu escrevi em uma revista que valia o preço da passagem só para ir lá ver aquilo e voltar para casa. É uma joia, um nível de sofisticação absurdo. Ele cobriu uma montanha de concreto e depois tirou a terra de dentro. É impressionante.

Luciano Ribeiro: Márcio, você perdeu seu pai aos 8 anos. Como isso te marcou?

Márcio Kogan: Foi um grande desastre. Demorei dez anos para me recuperar. Eu tinha 8 anos e acho que só aos 18 comecei a viver de fato. Foi uma adolescência “bergmaniana”, sombria. Eu vivia num mundo em preto e branco. Eu era um péssimo aluno, mas isso me propiciou duas coisas: um dia matei aula, fui ao Cine Biju e assisti “O Silêncio”, do Bergman. Foi o primeiro contato com a poesia na vida. Aquilo caiu como um raio na minha cabeça e influenciou tudo depois. A segunda coisa é que eu fugia da escola para ir ao Pacaembu ver o Pelé jogar. Vi o Pelé dezenas de vezes, foi um presente da vida.

Luciano Ribeiro: Você sente saudade da São Paulo dessa época?

Márcio Kogan: Acho que sim. Eu encostava minha bicicleta no muro do Pacaembu sem corrente e ela continuava lá quando eu voltava. A cidade piorou muito urbanisticamente. As calçadas são esburacadas, tudo é malfeito, mas eu continuo gostando. A cidade é mágica, você vicia na energia dela. Ela não quer ser Paris ou Tóquio, ela é São Paulo com todos os seus defeitos.

Luciano Ribeiro: Você escolheu morar em Higienópolis, um bairro maravilhoso para um arquiteto. Me conta como você vê esses arquitetos que projetaram o bairro.

Márcio Kogan: É um momento mágico. Você anda num bairro que tem uns 30 prédios incríveis. No meu primeiro fim de semana lá, acordei cedo, andei pela avenida e pensei: “Nossa, que lugar é este?”. É um exemplo de como se fez boa arquitetura dos anos 40 aos 60. Tem o Prudência, os do Artacho Jurado… Eu escolhi um prédio muito especial.

Luciano Ribeiro: Na nossa reportagem, você conta que o seu apartamento tem apenas dois quartos e diz que nenhum cliente seu moraria lá. Por quê?

Márcio Kogan: Porque o prédio não tem uma garagem tão boa, a planta original tinha quatro quartos e eu deixei só uma suíte, e a cozinha fica no meio do corredor. É tudo fora do padrão da nossa burguesia. Mas a mim não incomoda nada. Coloquei lá minha coleção de “sketches”, meus livros, gravuras do Fellini. Minha vida inteira está demonstrada ali. Perdi o medo e fiz. Eu sempre tive um pouco de medo de me “autodestruir” financeiramente, mas agora senti maturidade para isso.

Luciano Ribeiro: Aos 73 anos, você ainda tem medo de falir?

Márcio Kogan: Sou pé no chão. Não tenho luxos, não tenho casa de praia ou campo. Tenho uma vida sóbria. Sempre tentei montar um colchão financeiro para o escritório para ter o privilégio de falar não para as porcarias que me ofereciam. É uma luta de quem está começando: você precisa botar comida no prato, mas não pode aceitar fazer um prédio neoclássico se aquilo vai contra o seu trabalho. Eu sempre fui obcecado em não fazer uma obra ruim.

Luciano Ribeiro: Quanta energia você dedica ao trabalho hoje?

Márcio Kogan: A mesma de sempre. Sou o primeiro a chegar, chego muito cedo. O trabalho me dá muito prazer. Só não trabalho mais aos sábados e domingos. No escritório somos 66 pessoas — eles mentem para mim porque sabem que eu não gosto de crescer, então eu acho que são 40, mas na verdade são 60. Tenho uma equipe muito veterana que carrega o escritório nas costas.

Luciano Ribeiro: Para que tipo de cliente você diz não hoje?

Márcio Kogan: Digo não quando não existe empatia. Se não houver conexão, não funciona. Eu não tenho o sonho de desenhar um aeroporto ou um shopping; gosto de desenhar para quem eu gosto. Prefiro desenhar um bercinho para um amigo do que um prédio na Park Avenue. O Jô Soares uma vez tirou sarro de mim por causa disso, mas eu continuo com esse conceito.

Luciano Ribeiro: Em 2025, você está com projetos em quais países?

Márcio Kogan: Argentina, Peru, Miami, Espanha, Itália (trabalhamos muito com design lá), Coreia, Singapura, Dubai… é bem espalhado. Mas eu já não viajo tanto. Teve um ano que peguei 70 voos e achei insuportável. Prefiro ficar aqui em São Paulo.

Luciano Ribeiro: Quais cidades você admira?

Márcio Kogan: Tóquio. Fui seis vezes seguidas e fiquei apaixonado. É realmente outro planeta, todos os códigos são diferentes. A sofisticação deles, desde o embrulho de um chocolate até a arquitetura, é um nível muito alto. E Paris, claro. São os dois lugares que mais gosto.

Luciano Ribeiro: Que conselho você dá aos jovens arquitetos?

Márcio Kogan: Como dizia meu sogro, se conselho fosse bom, não seria grátis. O que eu faço é contar como foram meus primeiros anos e o quanto eu trabalhei. Nada cai do céu. O trabalho duro é a única mensagem real. Muita coisa boa aconteceu na minha vida profissional na Itália, fiz amizades, conheci a família do Fellini… mas tudo veio de muito trabalho.

Luciano Ribeiro: Muito obrigado pela sua participação no nosso podcast.

Márcio Kogan: Obrigado, eu que agradeço. Vou adorar ver a revista.

Esse episódio do podcast Esquire tem o apoio do C6 Bank. Viver bem não é sobre ter mais, mas viver com intenção. Assim como cuidar da mente e do corpo, cuidar das suas escolhas faz parte de uma vida equilibrada. O C6 Carbon é o cartão que transforma decisões do dia a dia em experiências extraordinárias.