
Sobre o livro “Lou Reed – O rei de Nova York”, de Will Hermes, o “Washington Post” escreveu: “A única biografia sobre Lou Reed que você precisa ler”. Já a “Esquire” cravou: “Um retrato irresistível de uma das personalidades mais importantes da história do rock dos anos 1960 e 1970”. Sobrepostas na contracapa por um acetato transparente sobre um fundo amarelo, as duas resenhas – a primeira impressa no papel em letras pretas, a segunda escrita no acetato em letras brancas” – fazem parte do conjunto visual criado pelo designer Leonardo Iaccarino para a edição brasileira da obra, lançada em 2025 pela editora Best Seller, um braço da Record. A capa traz uma imagem de Reed em amarelo e preto, enquanto sua parte interna tem contrastantes grafites em um muro cinzento.
O projeto – que faz referência à clássica capa de Andy Warhol para o igualmente clássico álbum “The Velvet Underground & Nico”, de 1967 – rendeu a Iaccarino a inclusão na seleta lista das 50 melhores capas de livro do ano passado, feita pelo American Institute of Graphic Arts, além de dois prêmios (júri e escolha popular) no Latin American Design Awards 2025.
“Quando comecei a trabalhar nesse projeto do Lou Reed, pensei imediatamente em ir por um caminho afetivo. E logo me veio a referência à capa do Velvet. Queria falar dela, mas de forma muito sutil” conta Iaccarino em entrevista por telefone. “A ideia da sobreposição foi uma forma de unir tudo, reforçando também a ideia de ele ser um artista de várias camadas. E os grafites são de uma série de fotos que tirei em Nova York, sem muita pretensão, mas que acabaram servindo de contraponto ao desenho limpo da capa”.

Os prêmios – que se juntam a outros recebidos, como, por exemplo, o International Design Awards (IDA) pela capa de “Sonetos de birosca e poemas de terreiro”, de Luiz Antônio Simas – endossam a qualidade do trabalho de Iaccarino, que estudou na Escola Superior de Desenho Industrial da UERJ e fez mestrado na Universidade de Reading, na Inglaterra. Há mais de duas décadas à frente do departamento de design da Record, ele já assinou boxes de autores como Umberto Eco, Graciliano Ramos, Ernest Hemingway e Albert Camus, além de best-sellers recentes como “Tudo é rio”, de Carla Madeira” e “A biblioteca da meia noite” de Matt Haig (outra adaptação literalmente brilhante do original, com sua capa verde fosforescente).

“Trabalho numa editora grande, de natureza comercial, onde as tiragens são altas e tudo é em grande escala. Mesmo assim, sempre vai existir espaço para o risco, para a ousadia, para o atrevimento, que é o que chama a atenção no final das contas”, explica ele, citando como exemplo outro livro de Simas, “O corpo encantado das ruas”. “A sugestão que recebi era para fazer algo com uma esquina, uma encruzilhada ou qualquer coisa que tivesse relação com o Centro do Rio. Mas depois de olhar o livro, percebi que não era aquilo. Vi que tinha que ser algo com um valor simbólico, que representasse a cultura do subúrbio do Rio, com caráter religioso. Foi quando tive a ideia do saquinho de Cosme e Damião.”
Em seu processo criativo, muitas vezes acelerado, o designer admite que nem sempre consegue ler todos os livros em que trabalha. “Infelizmente, não consigo ler todos. Às vezes, leio trechos, os capítulos iniciais ou algumas críticas porque preciso minimamente entrar no universo do livro, captar a sua essência. A partir dali, busco trazer uma interpretação própria, propor alguma coisa, mas sem atravessar completamente o que o autor tem a dizer”.

O fato de ter seu trabalho reconhecido e poder criar e ousar, mesmo com alguma limitação, não impede que Iaccarino perceba – e lamente – o virtual encolhimento de um universo parecido com o que ele habita: o da música. Imprescindíveis no formato do vinil, reduzidas no formato CD e esvaziadas no streaming, as capas de discos viraram um detalhe na era das grandes plataformas, que engoliram contracapas, encartes, créditos e informações gerais.
“A arte das capas de livros ainda resiste porque ela segue sendo diferente daquela da música. A mídia musical foi se transformando, do vinil ao cassete ao CD e agora ao streaming. Nela, a relação é sempre com o som, com o sentido da audição. Já o livro, mesmo o digital, ele vai precisar de um dispositivo físico. E ele não pode ser muito reduzido por razões óbvias. Ninguém vai correr lendo um livro. Então, por tudo isso, a arte da capa do livro ainda deve persistir por muito tempo, diferentemente da arte das capas de discos, infelizmente cada vez mais reduzida em seu valor”, reflete ele, que trabalha ouvindo música. “Escuto muito jazz, John Coltrane, Stan Getz e Miles Davis principalmente.”