
Minha primeira lembrança fazendo uma foto é de meu pai, sobre um riacho congelado em Yorkshire. Aquele inverno foi especialmente rigoroso, então o registro capturava um momento único: era a primeira vez que aquele riacho tinha congelado. Eu tinha uns 10 anos. Mas, aos 13 ou 14, decidi: “É isso que eu vou fazer.” E, desde então, sigo numa linha só. É simples assim. Sempre fui bastante seguro de mim. Imagino que você possa dizer que isso veio da minha criação, dos meus pais. Eles sempre incentivaram muito minha carreira na fotografia.
O fato de crescer em Surrey é que faz qualquer outro lugar parecer interessante. Eu tinha muita vontade de ir embora.
Tenho uma veia colecionadora. Tínhamos um pequeno museu no porão da casa em Chessington, onde moramos primeiro, cheio de bolotas regurgitadas por aves, crânios, pedras e fósseis. Eu colecionava moedas da era da rainha Vitória, selos… Fotografia também é uma forma de colecionar, claro.
Litorais deveriam ser lugares animados, mas escondem muita carência. Nós não frequentávamos balneários, então fiquei sem os prazeres de Brighton ou Eastbourne, ou de todos aqueles outros lugares para onde as crianças costumavam ser levadas. Isso explica meu interesse de longo prazo.
Eu não me dava particularmente bem com minha mãe. Mas ela era de esquerda, e isso eu herdei. Lá em casa ninguém jamais votaria nos conservadores.
Tenho genes obsessivos. Meu pai era observador de pássaros e, na adolescência, eu o acompanhava aos sábados ao Hersham Sewage Works. Ele armava redes, os pássaros entravam, e ele os anilhava para rastrear migração. A ferrovia de Waterloo a Bournemouth passava ao lado, então virei um entusiasta de trens como forma de amenizar o fato de ter que ir ao Hersham Sewage Works todo fim de semana.
Hoje em dia você não iria muito longe só com uma habilitação em artes no ensino médio britânico. Mas, se eu tivesse conseguido duas habilitações, não teria ido para o Manchester Polytechnic — que acabou sendo uma das melhores coisas que fiz. Primeiro, conheci minha mulher. Segundo, conheci grandes fotógrafos.
Todas essas decisões que tomei — ou que me foram impostas — acabaram sendo ótimas.
Tivemos nossos momentos, como qualquer casal. Mas estamos juntos há 50 anos, casados há 45, por insistência, estabilidade, chame do que quiser. Nossa filha nasceu em 1986. Suzie sempre esquece nosso aniversário de casamento, mas ele está quase aí. Vou mandar um buquê de flores para ela. Surpreender.
Você tem a responsabilidade de registrar coisas importantes na sociedade. Fotojornalistas costumam olhar para situações como o fechamento de uma fábrica, mas foi interessante fotografar lugares no auge, como supermercados e postos de gasolina.
Gosto da maluquice dos ingleses, com todos os seus passatempos e obsessões. As corridas de cavalos, as feiras agrícolas, as festas de verão. Somos um bando excêntrico.
Como fotógrafo, ser alto ajuda. Quando você pensa bem, sempre dá para baixar o ângulo, não dá?
Quando comecei a trabalhar em cor, de repente meu trabalho passou a ser visto como crítica social, e não celebração. Há algo intrinsecamente romântico no preto e branco; a cor tornava tudo ainda mais real.
Sou um populista no fundo. Queria entrar na Magnum para colocar minhas imagens no mundo, e a Magnum tinha, de longe, os melhores fotógrafos. Demorou até me aceitarem, e Philip Jones Griffiths liderou a ala anti-Parr: escreveu uma carta aos membros, na véspera da votação, dizendo: “Se deixarem esse sujeito entrar, será o fim.” Foi muito polêmico; todos discutiam e gritavam uns com os outros.
Eu me visto do jeito que acho que devo me vestir, o que é bem sem graça. Eu me misturo ao fundo com minha câmera. Hoje em dia até sou reconhecido na rua, especialmente por fotógrafos. Eles sempre querem tirar uma selfie, o que não é problema. A não ser quando estou prestes a fazer um bom registro.
Tenho mieloma. Não existe cura, mas dá para controlar. Preciso de um andador para caminhar, mas ainda consigo fotografar. Não posso mais pular de um lado para o outro como antes, mas isso não me deixou muito mais lento. Tive muita sorte.
Tento fazer fotos interessantes, com algo por trás. E o humor simplesmente aparece. O mundo é engraçado, e você precisa rir das coisas absurdas que as pessoas fazem.