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As misturas musicais de João Parahyba têm um nome: ‘Mangundi’

Aos 75 anos, o percussionista que fez história com o Trio Mocotó lança álbum solo de grooves sortidos

Divulgação

 

João Parahyba inventa cada uma. No final dos anos 60, por exemplo, ele criou a timbateria, uma espécie de bateria compacta – apenas três peças, tocadas com uma escovinha. Foi a forma como encontrou para driblar a falta de espaço do Jogral, bar que reunia a nata musical e intelectual de São Paulo daquela época. “Era o nosso Blue Note ou o equivalente paulistano do Beco das Garrafas”, lembra ele sobre o lugar onde começou a carreira, aos 16 anos. “Era um espaço efervescente, de resistência à ditadura, onde cada noite tinha uma banda ou artista diferente, além de muita gente bacana aparecendo para dar canjas. Como o palco era pequeno, eu precisei me adaptar, inventando esse kit.”.

Quase 60 anos depois, a timbateria ainda é considerada um símbolo da criatividade de Parahyba, que acaba de lançar um álbum novo, “Mangundi”. Foi extraindo o máximo do minimalista instrumento que ele forjou o estilo que o consagraria como um dos grandes nomes da percussão brasileira. Como integrante do Trio Mocotó, que formou ao lado de Fritz Escovão e Nereu Gargalo, Parahyba – nascido em SP, há 75 anos – acompanhou “gente bacana” que passava pelo Jogral, como Cartola, Clementina de Jesus, Nelson Cavaquinho e até mesmo Duke Ellington. Mas foi com outro ilustre frequentador da casa, Jorge Ben Jor, que ele participou de uma invenção que mudaria o ritmo da MPB: o samba rock.

“O Ben Jor tinha um jeito muito intenso de tocar samba no violão, era uma patada igual à do Richie Havens. Graças a ele, nós passamos a tocar samba com a energia do rock. E deu no que deu”, conta sobre a parceria levou o Trio Mocotó a gravar com Ben Jor músicas como  “País tropical”, “Cadê Teresa”, “Que pena” e “Take it easy my brother Charles”, além de acompanha-lo no Festival Internacional da Canção de 1969, tocando “Charles Anjo 45”.

“O Ben Jor é um gênio”, resume ele, que mantém a chama do samba rock acesa em “Mangundi”, junto a levadas instrumentais de jazz, bossa nova, forró e funk. “Mangundi é uma expressão que escuto desde pequeno, na fazenda onde eu morava, no Vale do Paraíba, e quer dizer mistura. A pessoa chega do trabalho, olha a geladeira, vê que tem arroz, batata e ovo. Mistura tudo e faz um mangundi”, esclarece ele, estendendo o significado. “Como sou pacifista, meio hippie, acho que é uma palavra mágica, que pode ser entendida também como a mistura de raças, credos e sons, que é a cara do Brasil”.

Divulgação

 

Para botar para fora as misturas que tinha na cabeça, Parahyba contou com a ajuda do saxofonista Jota P. Barbosa (da banda de Hermeto Pascoal), que fez os arranjos e a direção musical de “Mangundi”. “Eu disse que queria fazer um disco de grooves, com clima de pista” explica ele, que teve outro parceiro no álbum: o DJ,  produtor e beatmaker EB (de Eduardo Barreto), fundador do Selo Vitrine, por onde “Mangundi” foi lançado. “O EB me ajudou a chegar nesses grooves, reforçando o respeito que tenho pelos DJs, que foram fundamentais para que o Trio Mocotó nunca desaparecesse”, diz ele, referindo-se aos inúmeros samples e remixes de faixas do grupo.

No álbum, lançado também em vinil, essa estética aparece com clareza – e inventividade – na faixa “Groove do avião”, que traz uma citação de “Água de beber”, de Tom Jobim. “É um sampler tocado”, esclarece Parahyba, que celebra outra influência no álbum, o saudoso produtor sérvio Suba na faixa de abertura, “Afrodunja”. “O Suba foi o cara que abriu a minha cabeça para a música eletrônica”, admite.

Além dos shows em torno de “Mangundi”, Parahyba entra em 2026 com o Trio Mocotó renovado, depois das perdas de Fritz e do seu substituto, Skowa. Ao seu lado e de Nereu (que participa do disco na faixa “Xei lá Town”), agora está Matheus Santhana, ex-Originais do Samba e Os Opalas. “Não vai faltar trabalho no ano em que completo 60 anos de carreira. E acho isso um tremendo privilégio. Afinal, somos poeira do universo. Cada dia vivido é uma conquista”.