Tem Rato no número 71 da Rua Joaquim Silva. Foi ali, no coração da Lapa, no Rio de Janeiro, que os artistas plásticos Raul Mourão e Cabelo encontraram um abrigo razoavelmente seguro para desenvolver e ampliar suas criações e ideias nada convencionais. Há quase dez anos habitando o local – que fica atrás da Sala Cecília Meirelles e ao lado da Escadaria Selarón, um dos mais concorridos pontos turísticos da cidade –, eles fizeram do prédio de três andares a sua colônia e sede do coletivo que leva o nome de roedor. De hábitos sociais como ele, os dois adaptaram o espaço para receber amigos e público, funcionando – às vezes, simultaneamente – como galeria, ateliê, produtora, centro cultural e pista de dança.

“O Rato é um laboratório experimental de arte contemporânea, um projeto de colaboração entre dois artistas, aberto à participação de vários outros, sem muito dogma, sem muito planejamento”, tenta explicar Mourão, sentado numa mesa nos fundos da galeria, que fica no térreo. Algumas semanas antes, num sábado à noite, o mesmo lugar estava quase intransitável, cheio de gente circulando durante o lançamento do múltiplo KilomboAldeya, do artista Matheus Ribs. Batizado de Rato no Rato, o evento, gratuito e aberto, incluiu um debate com a presença do autor, uma visitação aberta aos ateliês de Mourão e Cabelo, um show com o percussionista Sérgio Krakowski e uma festa ao som dos DJs Nado Leal e B. Pauleira, que transformou a galeria em pista, com as pessoas dançando em torno de quadros e esculturas. Numa das paredes, um cartaz dizia: “A Babilônia é inflamável. E nós somos a faísca”.

“Quem vem aqui pela primeira vez, acha que somos malucos por não retirarmos as obras na hora da festa”, conta Cabelo. “Mas esse é o espírito do Rato. A gente faz parte dessa rua. Não podemos nos fechar a ela. E, sinceramente, nunca tivemos problemas. Nunca roubaram ou danificaram nada. De alguma forma, as pessoas respeitam o espaço.”

Essa efervescência, no entanto, não surgiu da noite para o dia. Ela é fruto de uma parceria que vem se fortalecendo há mais de três décadas. Mourão e Cabelo – dois animais noturnos, de faro aguçado – se conheceram quando frequentavam a Escola de Artes Visuais (EAV) do Parque Lage, no final dos anos 80. Depois, seguiram se esbarrando e trocando ideias, enquanto evoluíam como artistas, em lugares como o (já extinto) sebo By The Book, o Paço Imperial e o Espaço Cultural Sérgio Porto, onde ainda hoje acontece o CEP 20.000, liderado pelo poeta e escritor Chacal. No CEP 20.000, Cabelo começou a abraçar a música como uma das variáveis do seu trabalho, ao se tornar cantor do Boato (que teve Pedro Luís como um dos seus integrantes). Espécie de grupo residente do projeto, o Boato chegou a lançar um álbum, “Abracadabra”, em 1998.
A música fez o par se juntar de vez, em outra toca, a galeria Gentil Carioca, em 2011, em meio ao show-performance-exposição “Cabelo apresenta MC Fininho e DJ Barbante no Baile Funk”. Para ajudá-lo a dar vazão àquele seu alter ego, Cabelo – que já tinha exposto na feira Miami Art Basel – recorreu a Mourão, que virou o curador e produtor do evento. Já exibindo talento para circular livremente por diversas áreas, o artista de face dupla conseguiu juntar, em poucos dias, um seleto time de músicos, produtores e DJs da cidade, como Kassin, Lucas Santtana, Sany Pitbull e Marcelo Callado, para criar as bases de suas rimas. O saldo foi um álbum independente de 11 faixas, distribuído como CD.

“A partir dali, nós decidimos usar o nome Rato Branko para todos os projetos que a gente fizesse juntos”, explica Cabelo, que inicialmente usava a expressão apenas para se referir ao amigo. “Eu dei esse apelido pra ele”, sorri, olhando para Mourão. Os projetos em comum ainda eram esporádicos quando Mourão – que tem obras em coleções do Museu de Arte Moderna do Rio e no Instituto Itaú Cultural de São Paulo – se mudou para Nova York em 2013. Na época, ele já ocupava uma das salas do prédio. “Esse lugar foi tão mal construído que nunca conseguiu ser vendido como prédio residencial. Foi ocupado por uma confecção, depois por uma companhia de dança, até que virou um espaço de artistas, com suas quitinetes transformadas em ateliês. Eu mesmo já fui síndico e fiz várias melhorias aqui”, conta. “E quando eu viajei, tranquei meu ateliê, mas não me desfiz do espaço.”
Quando voltou dos EUA, em dezembro de 2015, Mourão encontrou o prédio praticamente vazio, ocupado apenas por Cabelo, que tinha mudado seu ateliê para lá. “Foi quando a gente começou a realmente conspirar juntos e a entidade Rato Branko se instalou no prédio”, diz ele, nascido em Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo. “A data oficial foi o dia três de março de 2016, aniversário do Zico”, completa o carioca (e, claro, flamenguista) Mourão.

Começaram, então, a acontecer as primeiras exposições (de nomes como Marcelo Yuka, Allan Sieber, Maxwell Alexandre e Edu de Barros), performances, séries no YouTube, festas (inicialmente chamadas de Modéstia Party) e até mesmo um evento de Carnaval, o Rato Bloko, tudo em meio à produção (de pinturas, fotos, etc.) da dupla, vendida no seu site. O boca a boca em torno do coletivo e suas atividades – que se espalharam por outros lugares, como o Studio OM.art, de Oskar Metsavaht – foi crescendo rapidamente.
“Os dois têm uma simbiose muito grande, o Raul Mourão com o foco em eventos e seus desdobramentos, o Cabelo com a força dele na rua. Assim, eles foram, aos poucos, se entendendo como um grupo de ação em várias frentes, capaz de falar com vários públicos”, analisa o pesquisador, escritor e professor de Literatura Brasileira e Artes Cênicas Fred Coelho.

De passagem por Nova York em 2018, Mourão teve uma visão que influenciaria, decisivamente, seu trabalho e também o projeto com Cabelo. Ao ver na rua uma bandeira dos EUA que, por causa do vento, havia se enrolado no mastro, escondendo momentaneamente as suas estrelas, ele enxergou naquilo um símbolo do país durante o turbulento primeiro mandato presidencial de Donald Trump. De volta ao Brasil, que vivia o traumático governo Temer, ele criou a obra “The new brazilian flag”, uma bandeira nacional com um buraco circular no lugar das estrelas e dos dizeres “ordem e progresso”, definida pela antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz como “uma metáfora do vazio institucional, o vazio da incerteza”. Inicialmente usada como uma intervenção, pendurada nos Arcos da Lapa durante o Carnaval daquele ano, ela virou, logo depois, um múltiplo, o primeiro do Rato Branko, cuja venda reverteria para as atividades do coletivo.
O bicho começou a pegar mesmo, em vários sentidos, na pandemia. Durante uma live feita por Caetano Veloso, acompanhado dos filhos, em sua casa, em agosto de 2020, transmitida pelo Globoplay, a “The new brazilian flag” apareceu, emoldurada, atrás do cantor, inserida na decoração. “Foi uma loucura porque a bandeira virou o caixa do Rato, viabilizando, naquele momento, a continuidade do projeto”, lembra Mourão. Depois da pandemia, a bandeira apareceu também nos cenários de shows de Adriana Calcanhotto e BaianaSystem, além de ser exibida na peça “Tom na fazenda”, dirigida por Rodrigo Portella.
“A bandeira se tornou, de certa forma, um símbolo do Rato Branko também”, explica ele, enquanto mostra parte do seu ateliê, com uma parede tomada por fotos em preto e branco de pessoas num trem. “É uma série que eu fiz no metrô de Nova York. Ainda preciso achar um destino para isso”, explica.
Fortalecido pela exposição, o projeto – que tem também Leal, Pauleira e Marcelo Pereira como sócios – só fez crescer com o fim do isolamento e a volta às atividades. “Foi quando o leão conheceu o rato”, brinca Cabelo, ao falar da transformação do projeto em CNPJ, acabando com parte da sua informalidade e com metade do seu nome, já que agora ele se chama apenas Rato. “Agora somos também uma produtora de audiovisual, mas totalmente atípica porque a gente produz, mas ainda não veicula, a não ser no nosso canal do YouTube, porque ainda não temos uma grande receita”, diz Mourão. “Mas assumimos isso. Estamos criando um banco de memória, temos inúmeras entrevistas, de artistas como Rubem Grillo, Carlos Vergara e Rafael Alonso, além de um documentário sobre a Audio Rebel, ainda sendo finalizado.”
Para celebrar seus dez anos de Joaquim Silva – rua onde moraram Carmen Miranda e Jacob do Bandolim –, o grupo negocia a abertura de uma pop-up em São Paulo e uma exposição em Salvador. Enquanto a hora não chega, o Rato vai se multiplicando, produzindo shows (como Teenage Fanclub e Kokoko, junto da Kromaki Filmes) e investindo em novas parcerias (como o projeto Iboru, de Marcelo D2 e Luiza Machado). Na sede, cujo portão foi pintado pelo artista gráfico Márcio de Carvalho com os dizeres “Coragem 24h”, mantém sua programação fora do normal, que inclui exposição de um (novo) artista por mês, seguida pela produção de um minidoc sobre ele e, claro, por uma festa. “O Rato é uma ponte entre gerações, ver o Cabelo e o Raul, que já têm uma trajetória longa e consolidada, dialogando com artistas da minha geração é algo realmente muito inspirador”, diz Ribs.
“A gente não tem essa pompa de galeria”, garante Cabelo, no seu ateliê de paredes vermelhas e quadros espalhados pelo chão. “Galerias e ateliês são ambientes restritos por natureza”, completa Mourão. “E seria um certo egoísmo da nossa parte reproduzir isso numa cidade tão carente, com tantas diferenças e tantas precariedades como a nossa. A gente está aqui, num lugar estratégico, temos espaço, temos relações na cena cultural, então, porra, vamos compartilhar o nosso espaço com a comunidade artística e com o bairro. Até porque se a gente não estivesse ocupando esse espaço com arte, o que ia ter aqui? Talvez uma loja de souvenirs ou uma oficina mecânica.”