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O que eu aprendi: Kareem Rahma

Apresentador do popular programa de entrevistas na internet “Subway Takes”, 39, Brooklyn

Esta entrevista foi originalmente publicada em dezembro de 2025 na Esquire US

Ter uma boa conversa é uma arte em extinção.

“Subway takes” nasceu disso: minha noite ideal são quatro horas em volta de uma mesa discutindo e conversando com um grupo de cinco pessoas. Debatendo sobre nada, ninguém se ofendendo, porque é só por diversão.

O espírito do debate está em falta nos Estados Unidos. “Subway takes” é um lugar onde você pode se divertir discutindo.

Depois de mais de quinhentos “Subway takes”, nada mais me surpreende.

Crescendo como um garoto muçulmano em Minnesota, aprendi a ser um camaleão. Eu não queria ser diferente. Não consegui falar inglês nos primeiros seis anos da minha vida. Sofri bullying por causa disso.

Na minha casa, tocava música árabe e as notícias – CNN e Al Jazeera.

Quando eu era criança, eu dizia para o meu pai: “Olha o que eu fiz.” E ele respondia algo como: “Ótimo, continua.” Na época, isso me deixava puto pra caralho, mas hoje vejo que foi uma das maiores lições da minha vida: você ainda não terminou. Você nunca termina de verdade.

Uma lição que minha mãe me ensinou é que mil pequenos inconvenientes valem a pena para manter a tragédia real, ou o grande problema, longe. Posso me foder bonito, e penso: “Tudo bem.”

Outro dia, perdi minha carteira. Ela voou da minha bicicleta. Eu estava a uns 30 por hora atravessando a Manhattan Bridge. Tenho quase certeza de que foi parar no rio. Minha carteira de motorista, meus cartões de crédito, tudo estava lá. Eu estava prestes a viajar para a Europa. Pensei: tanto faz. Fui para a Europa por dez dias sem cartões de crédito. Tinha Apple Pay e meu passaporte.

O que aprendi sendo cronicamente online? Tudo. Literalmente tudo.

Comecei a trabalhar aos 14 anos no McDonald’s. Dos 14 aos 33, não parei um segundo. Achei que queria ser empreendedor. Idolatrava Steve Jobs, Mark Zuckerberg, Blake, da Toms Shoes. Tentei, e desenvolvi síndrome do impostor. Estava deprimido, ansioso, triste, sem vontade de viver.

Eu tinha 33 anos – o ano de Jesus – quando tive uma iluminação de meia-idade. Não foi uma crise. Foi uma grande encruzilhada da minha vida. Eu não explodi minha vida; ela explodiu sozinha.

A pandemia estava acontecendo. Eu estava de volta a Minnesota porque meu irmão mais novo estava no hospital após um acidente de carro com risco de vida. George Floyd foi assassinado, e eu me envolvi profundamente nos protestos. Eu estava passando por uma separação da minha ex-mulher. Me vi sem nada. Ninguém dependia de mim, sem carreira, sem Nova York. Eu estava desimpedido. Parecia um reset completo de fábrica.

Pensei: o que eu deveria fazer pelos próximos cinquenta anos? As pessoas gostam de passar tempo comigo, eu gosto de passar tempo com as pessoas, acho que existe uma carreira possível como comediante ou com entretenimento. Se eu levasse a sério os próximos cinquenta anos, se realmente não quisesse passar a vida escrevendo e-mails, eu precisava tentar. Pela primeira vez desde criança, me senti livre. Fiz um compromisso de mudar meu trabalho para algo que eu amo. Foi ali que a jornada começou.

Sempre tive muita dificuldade em deixar as coisas irem embora, em deixar pessoas irem embora: amigos, empregos, carreira. O divórcio me ensinou a desapegar. Sempre que alguém diz: “Estou me divorciando”, eu respondo: parabéns. Vai ser incrível.

Ter dinheiro me dá medo de ficar pobre de novo.

Eu agradeço a Deus pelo que tenho e sinto que existe alguém olhando por mim. Me sinto bem com a ideia da existência de um Deus. Ter fé é difícil. É muito duro simplesmente aceitar que existe um criador ou uma força maior. Mas, no fim das contas, eu aceito.

Todo mundo é interessante. Conversar é divertido. Estar junto é divertido. A vida é divertida. A jornada é incrível, sabe?

Em quase três anos de “Subway takes”, Kareem Rahma já fez a mesma pergunta simples – “Qual é a sua opinião?” – a pessoas que vão de Spike Lee a Jane Goodall. Rahma vive no Brooklyn com a esposa, Karina. Eles receberam o primeiro filho em 2024.