Um jovem tenista de mesa sonha alto. Ele, que vive em uma cena nem tão glamorosa da comunidade judaica de Nova York, aposta no talento nato como tenista de mesa para conquistar reconhecimento nacional e internacional e, consequentemente, dinheiro, sucesso e fama. Ele sua por isso, ele luta para isso, custe o que custar. A premissa de “Marty Supreme” não pode ser confundida com a opacidade do “american dream”, pelo contrário, é um filme que vai além das idealizações e foca em um lado tão humano quanto assustador de alguém com ambição e autoestima em dia. Petulante, arrogante, irresistível. Assim é a aventura vivida por Timothée Chalamet no novo filme de Josh Safdie, com roteiro levemente inspirado na vida do atleta Marty Reisman.
“O filme é sobre felicidade, de muitas maneiras. Sobre como alcançá-la e também sobre como ela pode desaparecer num estalar de dedos. É um sentimento muito fugaz, assombrado. A gente pensa nela, corre atrás dela. Ela existe dentro de nós como algo que pode existir, mas por que ela não existe o tempo todo?”, explica Josh em entrevista à “Esquire Brasil”. O diretor, que cultiva um currículo cheio de boas narrativas e formato ousado, realiza pela primeira vez desde 2008 um filme sem o seu irmão, Ben Safdie. É visível, porém, as características que lhe pertencem: a montagem frenética, a fotografia claustrofóbica, o escalonamento do absurdo cotidiano em ações e reações surpreendentes, o tato na subjetividade de cada personagem.

“Eu me vejo em cada um deles, mas Marty carrega algo profundo da minha experiência. Quando eu fazia ‘Uncut Gems’, passei mais de dez anos obcecado pelo projeto, acordava e dormia pensando nele, e ninguém acreditava que aquele filme pudesse existir. Essa sensação de insistir sozinho em um sonho que parece impossível é muito parecida com a urgência quase patológica do Marty”, conta o diretor. A maturidade, dele e do seu protagonista de ouro, veio com o passar do tempo, com a jornada para além da realização profissional. “O meu propósito não estava no destino e, sim, na jornada. Casei, tive duas filhas, tudo isso transformou a forma como eu enxergava a ideia de sonho, família e sentido de vida. Algo que quis trazer para o filme também.”
Na ficção, Marty percorre os cantos mais pomposos como representante dos Estados Unidos em campeonatos de tênis de mesa, como também os mais escondidos da Big Apple para partidas amadoras com apostas perigosas – tudo para alavancar fundos e se manter ativo num esporte ainda incipiente. O que permanece é o senso de grandeza. “Me reconheço em Marty: alguém consumido por um objetivo, que se descobre no processo e entende que quem acredita no nosso sonho junto é o que realmente importa.”
Não sendo o objetivo de interpretar o personagem do próprio filme, Josh conta que não havia ninguém no seu radar além de Timothée. “Nos conhecemos em 2017, antes de ‘Me Chame Pelo Seu Nome’ estrear. Alguém me disse: ‘Você precisa conhecer esse garoto, ele vai ser uma estrela’, algo que diretores ouvem o tempo todo. Mas quando o encontrei na première de ‘Good Time’, percebi de imediato que havia algo diferente nele: parecia que mal cabia na própria pele, como se estivesse prestes a explodir de energia e ambição”, relembra.
O garoto, a poucos meses de impactar a indústria com a sensível interpretação de Elio, transbordou aos olhos do cineasta. “Ele queria ser a versão ‘suprema’ de si mesmo, um Timmy Supreme. E isso, para mim, era inspirador. Viramos amigos e quanto mais eu o conhecia, mais percebia esse lado dele que ninguém explorava nos filmes. Um lado com o qual eu me identificava.” É nítida a sinergia deles: Timothée, com a direção precisa e ousada de Josh, consegue não mais indicar a sua grandeza artística, mas comprová-la. Assim, ambos caminham para uma frutífera temporada de premiações em 2026.