O dia de Miguel Pinto Guimarães tem um desenho um pouco torto. “Eu trabalho das 5h da manhã até as 10h da manhã. É quando estou sentado em casa, concentrado, criando. A partir das 10h, fica tudo embolado, vida pessoal, vida profissional. É uma misturada só, mas eu gosto. Funciono bem assim também”, conta o arquiteto carioca de 50 anos.
São 13h de uma segunda-feira cinzenta e estamos em um escritório improvisado dentro de um contêiner, no Jardim de Alah, coração da Zona Sul do Rio de Janeiro, onde Guimarães, todo de preto, recebe a “Esquire” Brasil, depois de encerrar uma ligação telefônica e fechar o e-mail.

O local não poderia ser mais apropriado para a conversa. Afinal, o Jardim de Alah está no centro daquele que é, possivelmente, o maior projeto da carreira de Guimarães, marcada por trabalhos que conjugam sofisticação e simplicidade, sempre com um olhar humanista. “A arquitetura tem que estar a serviço do ser humano, não tem como ser diferente. Tudo o que eu faço tem na base a escala humana”, diz ele.
Ao lado de Sergio Conde Caldas, um dos seus sócios na startup OPY Soluções Urbanas, Guimarães comanda a equipe responsável pelas obras de revitalização do espaço de 93.600 metros quadrados, que liga a Lagoa ao mar, passando pelo conjunto habitacional Cruzada São Sebastião, e conecta os bairros de Ipanema e Leblon. Trata-se de um projeto pensado em 2015 e que, depois de muitas idas e vindas, gerou uma Manifestação de Interesse Privado (MIP) e um edital, vencido pelo grupo, que inclui também, entre outros, o empresário Alexandre Accioly.
“Há muito tempo, o Jardim de Alah virou um não lugar, um lugar invisível, onde todo mundo passa e ninguém vê, ninguém usa”, afirma ele, apontando, através de uma janela do contêiner, para o espaço abandonado, com vegetação maltratada. “É um espaço excludente, feito para não se pisar na grama, para não se fazer piquenique, um lugar que foi reformado em 2003, em 2007 e em 2009, sem jamais ganhar vitalidade. Além disso, é um projeto ambientalmente equivocado, um deserto verde, sem biodiversidade, repleto de espécies exóticas.”
O consórcio, batizado de Rio+Verde, ficará encarregado pela reforma e gestão do local pelos próximos 35 anos. No espaço, serão implantadas quadras esportivas, anfiteatro, creche, escola, estabelecimentos comerciais como lojas e restaurantes, além de uma galeria a céu aberto com esculturas de grande porte. “É um projeto que nasce da cabeça de arquitetos urbanistas e é apresentado assim para a prefeitura. Quando os empresários entram no projeto, ele já está pronto”, diz ele, rebatendo uma das críticas ao projeto, de que vai privatizar o local. “Pelo contrário, esse projeto representa a democratização do espaço. Nós conversamos com a Cruzada, com as associações de moradores, com os clubes do entorno, com os líderes religiosos, com os líderes esportivos. Conversamos, institucionalmente, com todo mundo para ouvir suas necessidades. Porque privado o Jardim está agora, informalmente, por alguns moradores das redondezas, que se acham donos do lugar e que, se pudessem, o fechariam com uma chave para ninguém entrar. O parque vai continuar aberto a todos, gratuito. E nós vamos elevar o piso para que as pessoas possam, enfim, ver a Lagoa e ver a praia. É um projeto de paisagismo muito legal. É o que a gente chama de acupuntura urbana, o implante de um equipamento de qualidade que acaba regenerando o entorno imediatamente.”

Provisoriamente batizado de Parque de Esculturas Jardim de Alah, o pilar cultura e arte do projeto – inspirado no Storm King Arts Center, de Nova York, e no Le Parc de La Villette, de Paris – exibirá esculturas comissionadas na superfície, incluindo uma galeria em torno dos restaurantes, onde vão ser exibidas obras de jovens artistas, além de trabalhos de realidade virtual ou imersiva, tudo sob a curadoria de nomes como Beatriz Milhazes, Gringo Cardia e Keyna Eleison, entre outros, reflexo da paixão de Guimarães pelas artes plásticas, ou melhor, pelas artes em geral. “É uma coisa que oxigena meu trabalho e alimenta a minha criatividade. Não sou bitolado com a arquitetura”, garante ele, que já assinou cenários para peças como “O submarino”, de Miguel Falabella e Maria Carmen Barbosa, e “A história dos amantes”, de Marcelo Serrado. “O Miguel tem uma relação de curiosidade com o mundo das artes, tem uma visão de mundo muito generosa, ele parece sempre aberto a receber esses impulsos das mais variadas áreas. É um traço da personalidade que vai para o trabalho dele”, destaca o artista plástico Raul Mourão.

Guimarães começou na arquitetura muito cedo, antes mesmo que percebesse. “Sempre fui nerd. E desenhava muito nos meus cadernos escolares. Mas não desenhava qualquer coisa. Desenhava casas, barcos, cidades. De tudo que eu lia e via, principalmente coisas de ficção científica, eu só ficava interessado no cenário, na casa do Lex Luthor, por exemplo, nos subterrâneos da cidade. Tinha arquitetura ali, mas eu ainda não sabia”, lembra ele, que, aos 15 anos, começou a estagiar, indo parar, logo em seguida, no escritório de Cláudio Bernardes, ao lado do filho deste, Thiago, que se tornaria um dos seus melhores amigos e parceiros.
Aos 19, antes mesmo de se formar na Universidade Federal do Rio de Janeiro, já tinha aberto seu próprio escritório. “Convivia com clientes e professores enquanto frequentava aquela que certamente foi a última turma a não ter nenhuma aula de computação gráfica”, conta ele, que admite ter perdido, por conta da trajetória precoce, a “parte romântica da profissão”, as viagens e os acampamentos de arquitetura, por exemplo. “Mas cada um com a sua história”, resigna-se.
Hoje, com a experiência de 22 anos à frente da Miguel Pinto Guimarães Arquitetos Associados, na qual assinou mais de 400 projetos no Brasil e no exterior, ele critica a falta de arquitetura de alto padrão no Rio de Janeiro, atribuindo-a, em parte, à legislação que encarece o terreno e leva à otimização máxima do metro quadrado, resultando em “caixotes de arquitetura horríveis”. Ele compara com São Paulo, onde a legislação permite projetos mais interessantes. Guimarães também se incomoda com a banalização do termo “arquitetura sustentável”. “A boa arquitetura é, naturalmente, sustentável porque já incorpora princípios como orientação solar e ventilação natural”, afirma ele, que enfatiza a preocupação com a relação dos edifícios com o espaço público, mesmo em projetos privados. “Um terreno, por mais particular que seja, está inserido em uma rua, em um bairro, em uma cidade. A gente nunca pode esquecer disso.”
Durante a pandemia, Guimarães, sempre inquieto, conduziu uma série de entrevistas, inicialmente sobre arquitetura e urbanismo, com personalidades como Gilberto Gil, Fernando Henrique Cardoso, Sonia Guajajara, Regina Casé, Marina Silva, Teresa Cristina e Gregório Duvivier, entre outros. O resultado virou o livro “Quarenta e quatro em quarentena”, lançado pela editora Intrínseca, em 2020. “O Miguel tem essa característica de se interessar pelos outros, de ser muito agregador, de saber lidar com os mais variados perfis, sempre com muita curiosidade e com uma positividade, um bom humor que reflete o jeito como ele se coloca no mundo”, conta o amigo Pedro Rivera, da Rua Arquitetos, ex-professor adjunto da Columbia University, em Nova York, que estudou e se formou com Guimarães na UFRJ.
Em outro trabalho paralelo à arquitetura, Guimarães reuniu um time de especialistas (como a jornalista Flávia Oliveira, o historiador Luiz Antônio Simas e a curadora Daniela Name) para traçar o perfil de 16 dos mais conhecidos carnavalescos do país, como Rosa Magalhães, Joãozinho Trinta, Laíla, Fernando Pinto e Max Lopes, no livro “Pra tudo se acabar na quarta-feira”, lançado no começo deste ano pela editora Capivara. Miguel e a mulher, Patricia Mesquita Marinho, filha de João Roberto Marinho, um dos donos do Grupo Globo, todo Carnaval lideram um dos camarotes mais animados da Marquês de Sapucaí. Miguel foi um dos autores do samba do Carnaval passado da Unidos da Tijuca, numa extensa parceria que reunia nomes como a cantora Anitta e o cineasta Estevão Ciavatta.

“Sou Portela e já fui a, sei lá, quarenta desfiles. Sou fascinado pela arte do carnaval, que dura 70 minutos e depois desaparece, e também pelos seus criadores”, explica ele, que critica a falta de reconhecimento acadêmico dessa turma, que ele argumenta ser contemporânea ou até precursora dos principais movimentos artísticos do país, como o modernismo e o tropicalismo. “O Miguel é capaz de se espraiar, criativamente, por diversos campos. Ele é um arquiteto que tem uma relação forte com os universos das artes visuais e das artes plásticas, é uma pessoa profundamente conectada com o Carnaval, não apenas no seu sentido visual, mas também no musical”, elogia a crítica de arte e curadora, Luisa Duarte, coautora do livro.
Além do Jardim de Alah, outro grande projeto em que Guimarães está envolvido – novamente ao lado de sua prancheta-metade Thiago Bernardes (“Foi um jeito de a gente celebrar 30 anos de amizade e 50 de vida”) – é o Terra All Resort, um empreendimento residencial de alto padrão localizado em Porto Belo, cidade litorânea de Santa Catarina que vem se desenvolvendo com a mesma criticada tendência de verticalização imobiliária da vizinha Balneário Camboriú. “Vamos fazer diferente do que é feito em Camboriú, é quase um manifesto contra a verticalização”, explica ele, enquanto mostra, num telão, uma maquete do projeto, que lembra uma das construções fantásticas do clássico livro “Cidades invisíveis”, de Ítalo Calvino. “São duas torres, horizontais, de dez andares cada, com várias coberturas, cheias de verde, que vão diminuindo até chegar ao último andar. Queremos dialogar e nos inserir nas montanhas incríveis que existem ali. É um desafio que vamos encarar com muito prazer.”
Para resolver esse e todos os outros quebra-cabeças da sua vida profissional, Guimarães costuma recorrer a um brinquedo bem popular: “Adoro Lego. É uma coisa que me ajuda a relaxar e, ao mesmo tempo, a pensar em soluções para meus projetos. Acho mágico”.